Quarta-feira, 21 de Março de 2012
por José Meireles Graça

Jorge Fliscorno manifesta aqui a sua perplexidade, assim: "A cada operação urbanística, a  que pomposamente se costuma chamar requalificação, é frequente haver árvores envolvidas e a sua envolvência consiste no abate".

Verdade como um punho. E daquelas que doem a quem, como eu, gosta de árvores.

Mas aprendi que a árvore na cidade é, para o citadino português típico, um inimigo. Vejamos:

Se for de folha permanente, tapa o Sol no Inverno; se for de folha caduca, entope os bueiros no Outono; em ambos os casos suja os carros aparcados por baixo, já para não falar nos pássaros a que as árvores dão poiso e que, coitadinhos, têm hábitos de higiene deploráveis; de vez em quando cai um ramo e, em noites de tempestade, tem havido casos em que a conjugação da força do vento e da força de gravidade, ambas refractárias à autoridade dos municípios, tem causado danos a bens e, em casos extremos, pessoas; tapa e obscurece a obra municipal, a casa de autor do arquitecto e a moradia do homem de sucesso, além de roubar precioso espaço de aparcamento, prejudicando as receitas dos parcómetros.

Realmente, bem vistas as coisas, nem se percebe bem para que serve exactamente a árvore: um trambolho que rouba as vistas da marquise e cujas raízes vão sufocar as caixas de saneamento, está ali a fazer o quê, precisamente?

Ai o oxigénio, e a filtragem de poeiras, e a fixação do solo - tretas: não faltam árvores nos montes e, a tê-las na cidade, que seja nos jardins, e bem no interior deles.

Conscientes deste sentir, mas gostando de agradar também àqueles eleitores que, por não terem eles próprios, ou os pais deles, sentido a miséria do campo, dão importância à Mãe Natureza, as Câmaras podam impiedosamente as árvores de porte, cerceando-lhes ao mesmo tempo a copa, os perigos e a beleza. É o dois em um: uma árvore que parece, e funciona, como um toldo.

Os românticos que se lixem, diz o edil, que nós não andamos cá para frescuras. E o arquitecto urbanista, mesmo de renome, mesmo premiado, abate árvores centenárias para plantar umas coisinhas com a côr certa, que vão bem com a sua dele visão. A visão costuma ficar cara, mas - não é verdade? - os honorários são função do custo da obra: sejamos práticos.

Felizmente, nisto muitos de nós não somos práticos. E somos cada vez mais, ó edis da nossa terra. Pena que já cá não estejais, nem nós, quando o que replantais tiver tamanho - sempre vos podia cair um ramo grosso em cima da cabeça. 

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