Quarta-feira, 10 de Outubro de 2012
por José Meireles Graça

Não tenho pretensões a conhecer com rigor o estado da opinião pública grega, menos ainda o que possa ser definido como alma grega. Sei o que toda a gente sabe: que estão mergulhados numa espiral recessiva (o PIB já caiu, lê-se, mais de 22%, o desemprego jovem vai em 55%), fazem as manchetes dos jornais com o folclore das manifestações e as jigas-jogas das eleições inconclusivas, odeiam a Alemanha mas amam o Euro, e têm sido pouco respeitadores dos acordos sucessivos que vão fazendo.

 

Não que o serem muito respeitadores fizesse muita diferença. Agora que o FMI começa a achar, oops, que afinal o efeito recessivo, inevitável, não é o mesmo indo pelo corte na despesa pública ou na privada via aumento de impostos, e que os ajustamentos precisam de tempo, Ângela resolveu ir a Atenas para, nas palavras dela, "compreender a situação no terreno. Ver a situação de perto leva a uma melhor compreensão."

 

Deixa ver se eu percebo: Ângela quer o que todos os políticos em democracia querem - ganhar eleições. E assim, para preservar o seu Euro, que é outro nome do Marco, nem interessa saber ao certo se achava ou não achava que o programa castigador da Troika ia correr mal, o que conta é o que disso pensava a opinião pública alemã.

 

Ora, os Alemães trabalham duramente de segunda à sexta, emborracham-se ao sábado, e apertaram o cinto quando outros o alargavam. Fabricam máquinas como ninguém, e respeitam as regras do dia - todas as regras, seja os standards de qualidade da Mercedes ou as da Democracia ou do Estado Nazi. Não estão dispostos a sustentar quem se rege por outros padrões, e pelo que me diz respeito não vejo neste particular por que razão haveriam de pensar de outra maneira.

 

Eu sei: a cornucópia dos milhões da UE regressou à Alemanha sob a forma de importações dos países com Sol e empréstimos que vão sendo pagos a peso de ouro, os mercadozinhos dos países pobretas dão jeito à indústria alemã, a Alemanha financia-se a uma fracção do preço que pagam os aflitos e há, parece, razões geoestratégicas, entre outras, para não pôr a Grécia pela porta fora.

 

Isto eu compreendo. Já não compreendo o fetiche do Euro: mesmo que a cotação do dracma fosse ao kilo, não haveria razões para a indústria exportadora grega não respirar saúde, o turismo estar florescente, e as importações se contrairem naturalmente, abrindo espaço para produção local - precisamente o que a Grécia necessita.

 

Mas cada Povo gosta do que gosta e quer o que quer. Os Gregos não gostam da Senhora Merkel e apreciariam que ela, as suas enxúndias acervejadas, e as suas toilettes desengraçadas, se deixassem estar pelas frias terras onde apreciam o género.

 

E isso eu não tenho dificuldade em compreender.


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