Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012
por Dita Dura

As minhas memórias da escola primária são a sépia, têm o sabor de leite chocolatado e o cheiro da sala de aula naquele dia. Nunca tive grande amizade com o Fernando mas, desde que aconteceu aquilo, fiquei ligado a ele para sempre. Há mistérios que a vida não perde tempo a explicar-nos.

 

Tudo se passou num dia que deveria ser como os outros, na rotina aborrecida da aula da terceira classe. Devo ter sido o último a perceber o que se estava a passar, mas quando dei por mim havia um círculo em torno do Fernando e a professora aos berros porque ele não sabia alguma coisa, provavelmente a tabuada ou o nome dos rios. Ele a chorar desalmadamente, ela completamente possuída e ávida de vingança, cada vez mais enfurecida e ansiosa, a exigir ouvir a mesma gravação repetida que nós tínhamos de decorar, mesmo que não entendêssemos. Mas em vez de emitir qualquer som articulado, o Fernando apenas conseguiu molhar o chão e arrancar uma gargalhada geral, “mijou-se todo!” Fui o único a ficar calado mas confesso que ainda tentei esboçar um sorriso para não me julgarem. Os amigos que ele tinha, que continuou a ter e ainda tem, riram-se até não poderem mais. Não tenho a certeza se ele aprendeu uma lição importante nesse dia, mas sei que eu aprendi.

 

Confiamos na amizade eterna, mas esta só permanece enquanto durar a oportunidade e a paciência. Tal como tudo na vida, as relações humanas são um negócio, uma troca que só dura enquanto for considerada justa e útil. Podemos enganar-nos a nós próprios e aos outros com juras infinitas ou convicções absolutas, mas esta é a verdade. E o pior é que não pode, nem deve, ser a desculpa para nos tornarmos egoístas ou passivos. Apercebermo-nos de tudo isto é duro mas é inevitável e chama-se crescer. 


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Sábado, 1 de Setembro de 2012
por Joana Nave

Há momentos nas nossas vidas que são verdadeiramente únicos. Nesses momentos gostávamos de poder parar o tempo para que as sensações que nos provocam durassem para sempre. Quando nos sentimos felizes estamos perante um desses momentos únicos e, naquele instante, a nossa mente é surpreendida por uma estranha clarividência em que tudo faz sentido e parece até que todos os caminhos percorridos e todos os acontecimentos do nosso passado serviram apenas para nos conduzir àquele momento. Temos de estar plenamente no presente para poder viver o momento e atribuir-lhe a devida importância.

Já vivi alguns momentos únicos de imensa felicidade que gostaria que tivessem durado para sempre, mas também vivi outros menos bons que não posso apagar com uma borracha porque também fazem parte da minha vida. Um dos momentos menos bons que vivi serviu também o propósito de me conferir um grande entendimento sobre a importância do tempo. Esforçamo-nos por viver da melhor forma, mas perdemos demasiado tempo com coisas e pessoas que não nos servem. Não é possível gostar de tudo e de todos, é preciso saber em primeiro lugar o que queremos e o que não queremos para podermos fazer escolhas conscientes de acordo com a nossa própria vontade.

Lembro-me de uma pessoa que uma vez me convidou para almoçar. Inicialmente pensei em recusar porque tinham-me dito que era muito aborrecido e interesseiro, mas resolvi dar o benefício da dúvida porque o que é mau para uns pode ser bom para outros, mesmo aborrecido e interesseiro não sendo características que possam favorecer alguém. O almoço decorreu com normalidade, embora se tenha tornado gradualmente mais aborrecido e interesseiro. A dada altura o meu interlocutor resolveu proferir uma frase muito importante para ele: “a vida é demasiado curta para perdermos tempo com quem não vale a pena”. Não imaginam como, naquele instante, a minha mente se iluminou de clarividência. Quem estava a perder tempo com quem não valia a pena era eu e apenas por educação fiquei sentada na mesa a contar os minutos que estava efectivamente a perder. No entanto, senti-me feliz por ter entendido a importância de viver o momento, mesmo que tenha sido para descobrir que os meus amigos estavam certos e que aquela pessoa era mesmo aborrecida e interesseira.


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Sábado, 4 de Agosto de 2012
por Joana Nave

Existem milhares de teorias sobre o ser humano e a sua capacidade ou incapacidade de sociabilizar. Por um lado, as pessoas que não têm amigos, ou são muitas vezes vistas sozinhas em público, são logo rotuladas como pouco sociáveis, mau feitio, antipáticas, manientas, e por aí fora. Por outro lado, um psicólogo poderá inferir uma teoria muito interessante acerca das pessoas que nunca vão sozinhas a lado nenhum. Uma pessoa que não vai ao café, restaurante, cinema, teatro, concerto, etc, porque não tem companhia, poderá sofrer de uma incapacidade de estar consigo mesma.

Eu sou uma pessoa sociável e, por vezes, até tenho bom feitio e sou simpática, embora não consiga abdicar das minhas manias. No entanto, gosto muito de estar comigo mesma e de fazer programas sozinha. Não me considero mais do que ninguém por poder fazer coisas acompanhada ou sozinha, simplesmente defendo os meus gostos e, se não for possível conciliá-los com os dos outros, não deixo de fazer nada por não ter com quem partilhar aquilo que gosto.

Concordo que é muito agradável poder partilhar com alguém aquilo que nos dá prazer, mas os meus hobbies preferidos - ler e escrever - são praticados em silêncio ou com uma música inspiradora. De facto, não preciso que ninguém me segure o livro ou a caneta. E a parte da partilha é o que faço, por exemplo, através dos blogues em que escrevo. O mesmo se aplica aos filmes que vejo, até porque acho insuportável que as pessoas comentem o filme enquanto o estão a ver (lá está a mania).

Já marquei mesa para um, já comprei muitos bilhetes individuais e a verdade é que me divirto imenso comigo mesma e reconheço que, se não formos uma boa companhia para nós mesmos, não o seremos para ninguém. Além disso, acho que é fundamental termos os nossos próprios interesses e não andarmos simplesmente à boleia dos outros. Quando alguém me convida para uma actividade que nunca experimentei, nem que mais não seja pela curiosidade, aceito quase sempre e com muito entusiasmo, mas só o farei de novo se a actividade for realmente do meu interesse. Acima de tudo, temos de ser em primeiro lugar verdadeiros connosco para depois o sermos também com os outros. Ninguém vai gostar mais de nós por estarmos a fazer algo que não gostamos. Fazermos algo contrariados pode criar mágoas e dissabores que de futuro não servem nenhuma relação.

Por isso, e com muito gosto, continuo a frequentar espaços como a Cinemateca, o King, a ouvir jazz, música clássica, ópera, e a ler autores portugueses, entre muitas outras coisas com que me rotulam de "intelectual". Pouco me importa! E tenho a certeza que fazendo estas coisas acabo por encontrar pessoas muito interessantes que partilham os meus gostos. Além do mais, amigo não empata amigo!


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