Sexta-feira, 10 de Maio de 2013
por José Meireles Graça

Um grupo de pressão resolve, contra a lei e os regulamentos, interromper os trabalhos de um orgão de soberania, cantando um hino em forma de balada. Há quem goste do hino porque lhe agrada musicalmente, quem dele se tenha apropriado para representar a parte derrotada da "Revolução" do 25 de Abril (os derrotados de 24 foram-no por um golpe militar), e quem o associe com um tempo em que éramos novos, as esperanças muitas e a alegria de viver maior. E, é claro, estas razões para o sucesso da musiqueta não se excluem umas às outras.

 

A Senhora Presidente mandou pôr os desordeiros pela porta fora. Fez muitíssimo bem: a representação política na AR faz-se segundo regras precisas, e os proprietários ideológicos da canção já lá estão, eleitos segundo as mesmas regras a que se submeteram os restantes deputados; além de que o direito à manifestação exerce-se na via pública, ou em lugares públicos onde não esteja expressamente ou implicitamente vedado pela natureza da função a que o espaço está afectado. Senão, amanhã teríamos manifestações nos tribunais, para pressionar os juízes, e deitávamos fora o Regimento da AR, por uma turba achar que há por ali uma gente que gasta o seu tempo, e o seu latim, a defender coisas eminentemente fássistas, pelo que seria do interesse das massas fechar-lhes a matraca a golpes de música de intervenção.

 

O incidente não teve qualquer importância, e já está devidamente esquecido. Mas esta minha querida inimiga de estimação conta aqui a história, com detalhe: a líder do grupo de exaltados, uma senhora de nome Rosário Gama, acha, em carta dirigida aos militantes, que "para a APRe! houve um tratamento humilhante, fazendo cada associado mostrar a roupa que trazia por debaixo da camisa ou camisola a fim de verificarem a existência de uma perigosa arma de propaganda: a t-shirt da APRe! a dizer que não somos descartáveis. Aos homens, a verificação era feita no corredor, as senhoras eram encaminhadas para um gabinete onde uma zelosa segurança mandava levantar as peças de roupa para ver o que havia escondido. Apesar disso, ainda conseguimos introduzir uma t-shirt na sala, juntamente com a “raiva” que já todos levávamos: aos alunos não foram tiradas as mochilas, a nós foram retiradas todas as carteiras e sacos…"

 

Fantástico: os seguranças farejaram problemas e quiseram assegurar-se de que não os haveria, pelo que fizeram uma revista. Vai daí, os revistados ficaram cheios de "raiva", agravada pela discriminação em relação aos putos.

 

Mesmo assim, o trabalho da segurança não resultou em cheio: escapou uma t shirt, e os manifestantes ainda tiveram ocasião de brindar os deputados com parte de uma Grândola desafinada. Ai!, que se eu fosse um bocadinho mais fássista ainda diria que sobrou uma t shirt e faltaram uns açaimes.

 

Mas não: a APRe fez o seu número, as televisões agradeceram, uns deputados sorriram, outros viram o e-mail, e nós lá em casa, repoltreados, assistimos pela TV, logo a seguir ao jantar, palitando os dentes.

 

Tudo está bem quando acaba bem.

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