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Forte Apache

Os tiros dos outros

Alexandre Poço, 26.05.13

"Ou, para usar o léxico em voga, os políticos não têm credibilidade. Ai, quanta saudade do tempo em que os políticos eram credíveis. Lembro-me como se fosse hoje de quando elegíamos gente cumpridora, unicamente preocupada com os célebres interesses do País e alheia quer a interesses partidários quer pessoais. Gente altruísta que sacrificava a popularidade a fim de servir o bem-comum. Gente ponderada, que nunca criaria as condições para entregar a nação ao FMI. Gente lúcida, que jamais permitiria a destruição, paga em cheque, do sector primário. Gente esclarecida, que sabia aplicar com rigor e parcimónia os "fundos" europeus. Gente determinada, que não cedia à atracção dos sindicatos pelo caos. Gente precavida, que se negou a autorizar o crescimento incessante da máquina estatal. Gente racional, que preferiu perder votos a alimentar a ficção de um assistencialismo desaconselhável e inviável. Gente insubmissa, que não sossegou enquanto não desmantelou uma Constituição devotada ao socialismo e acarinhada pelos comunistas. Gente avisada, que sempre preservou o equilíbrio das contas públicas. Gente decente, que combateu por dentro os naturais apetites do Estado para controlar a ralé desde o bolso até ao hábito. Gente democrática, que acautelou a probidade do sistema judicial. Gente visionária, que garantiu a exigência e a qualidade do ensino. Etc."

 

"Para os media e os "especialistas" da política e da economia, logo para a vasta maioria da opinião pública, a austeridade em que caímos é opcional. O Governo desatou a empobrecer os portugueses só porque retira farto gozo do exercício e não porque uma dívida descontrolada nos deixara próximos do colapso e em plena dependência da caridade (a juros) do exterior. Poucos se dão ao trabalho de notar que sem os apertos vigentes (e os que faltam) a troika não nos atura, que sem a troika os apertos serão imensamente maiores e que no mundo real não há descontos: os golos sofrem-se muito antes dos 92 minutos."


Alberto Gonçalves no Diário de Notícias

Marie Antoinette

José Meireles Graça, 30.10.12

 

Se os milhares de empresas que têm caído como tordos tivessem acesso a financiamento das instâncias europeias garantido pelo Estado (quer dizer, por nós), para reforço do seu capital; se tivessem um fornecedor incansável de matéria-prima (o BCE) para revenda a cliente certo e seguro (nós - a compra de dívida pública pelos bancos não é outra coisa); se a falência não fosse possível por a comunidade achar isso uma grande desgraça, evitável a todo o transe; e se comercializassem um bem que, por representar todos os bens, tem uma procura só limitada pela capacidade dos clientes para pagarem:

 

Haveria tantas falências?

 

Não, não haveria, a lógica não é uma batata. Mas os administradores, gerentes, sócios dessas empresas, pertencentes a uma casta privilegiada, andariam por aí de peito estufado, a produzir opiniões pesporrentas, dislates sortidos, e insolências várias, esfregando no focinho da turba miserável a sua suficiência de falidos inimputáveis?

 

Claro que não andariam. Porque não são bancários.

Temos para onde ir?

José Meireles Graça, 15.10.12

 

(*)

 

Hoje é dia de orçamento, o documento que, via fugas, antes de o ser já o era.

 

É um documento trágico: quase ninguém acredita que a pauperização da classe média seja caminho para lado algum. Não porque seja possível pagar dívidas sem apertar o cinto, mas porque o violento esbulho do rendimento ainda disponível é feito em nome de uma inevitabilidade sem outra esperança que não seja os credores abrirem os olhos a tempo de verem que nem para eles estão a ser bons.

 

Entendamo-nos: o caminho que alguma esquerda defende (renegociar a dívida sem reforma séria do Estado, sem diminuir as despesas sociais, e sem nenhuma receita para o crescimento que não seja o consumo) esbarra na incredulidade dos credores e no senso comum. E a ideia de que se pode dizer aos mercados que para já não pagamos, mas que o crédito deve continuar a fluir para importarmos combustíveis, alimentos, matérias-primas para a indústria e o mais que mantém o país de pé - ou decorre de ignorância, ou ingenuidade, ou má-fé.

 

Nas circunstâncias a que nos deixamos chegar o Governo que temos teve uma curta oportunidade de reformar o Estado, se tivesse concentrado todos os seus esforços na correcção do défice pelo lado da despesa e não hesitasse no tratamento a dar aos poderes fácticos do sector financeiro, dos plutocratas, dos sindicatos, das associações patronais e das opiniões estatistas, que são quase todas. Não foi assim e agora é tarde. Haveria convulsões, a popularidade ficaria num frangalho, o ambiente social não seria muito diferente do que é, a berrata das esquerdas seria, se possível, ainda mais estrídula, quando houvesse eleições perdê-las-ia - mas nem a queda do produto seria tão grande, nem a perspectiva de recuperação tão distante, nem a autoridade para discutir com os credores tão enfraquecida.

 

Numa palavra, preferiu-se a água choca do diálogo social, dos panos quentes, das reformazinhas, dos cortezinhos e das medidinhas. Quando, numa reforma do instituto das fundações, se faz um corte de apenas 30% à Fundação Mário Soares, um monumento dispendioso ao ego daquele heróico fóssil; quando se tratam com panos quentes os empresários de retorno garantido das PPPs e a banca que está por detrás; quando se deixa em paz o sorvedouro da RTP; ou quando se deixa cair a reforma dos municípios, para não perturbar as doces sinecuras dos senhores autarcas treteiros e sempre grávidos do próximo melhoramento - está tudo dito.

 

Alguma coisa ficará, muito mais do que ficaria se fôssemos pastoreados por um Seguro, ou um Costa, ou qualquer outro da longa lista de criadores de riqueza via Decreto-Lei e dinamismos públicos sortidos. Mas será pouco.

 

Para quem defende o que eu defendo, e que agora me dispenso de repetir, um pouco de cinismo autorizaria que pensasse: quanto pior, melhor. Nada disso: pena-me que o Governo mais à direita em quase 40 anos deixe de si a imagem de ter querido fazer tarde o que não teve coragem de fazer cedo; de ter sido forte com os fracos, por ter que ser, sem ter sido forte com os fortes, como devia; e que em momento algum tenha parado para pensar que futuro sem Euro e que, se não acredita já no caminho que os credores apontam, deveria ter o carácter de dizer: não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí.

 

____________

 

* Fotografia: Margarida Bentes Penedo

 

O sonho da austeridade

Dita Dura, 06.10.12

Odeio números. Ao contrário de muita gente, acredito que o mundo da ciência, da cultura e da política não se estabelecem segundo sistemas rígidos e vivências concretas. Mas como sou profundamente masoquista, resolvi formar-me em números e trabalhar durante anos fechado num cubículo de dois metros quadrados. O problema é que aquilo que somos não se pode fechar num pequeno escritório, porque de repente tudo vagueia e os números começam a ganhar asas, o “3” espreguiça-se, o “7” começa a voar, o “6” zanga-se com o “9”, o “1” deixa de estar sozinho e o “4” fica feito num “8”.

 

Volto à terra e à política nacional. O noticiário repete sempre os mesmos números, com interpretações ignorantes de jornalistas e conclusões abusivas de políticos. Os números podem ser chatos, irritantes, reincidentes, incessantes, mas não mentem. E a verdade dos números é a verdade dos factos:

 

1) a dívida pública aumentou 93% durante o reinado do Zé que agora anda a viver à grande e à francesa; tudo o que o Governo tem feito é condicionado exteriormente porque temos de pagar os disparates que se fizeram.

 

2) não se pode combater esta dívida monstruosa com a ideia abstracta de “crescimento e emprego” de que falam os mesmos arquitectos da desgraça; não se pode curar a doença com as mesmas políticas facilitistas que nos levaram ao pesadelo.

 

3) não basta cortar na despesa; se por hipótese despedaçarmos a despesa, é verdade que acabaremos com as gorduras, mas também mataremos de vez o corpo. Porque mais de 70% do que se gasta é na na Saúde, na Educação e na Segurança Social.

 

De repente salta um “9” da dívida pública e começa e procurar o “6”, o “3” do PIB abre a boca de sono e o “1” sai do alinhamento para ir à procura do “7”. Encosto-me e deixo os números à solta, penso sobretudo que a alma de um povo não é matemática, que a melhor forma de prevermos o futuro é olharmos para o passado. E o passado português é feito de conquistas, de coragem e superação, de combate aos oportunistas e de vitória perante os que nos quiseram explorar e oprimir. Quando a paciência se esgotar, o futuro vai voltar a ser nosso.

Cidadania

jfd, 15.09.12

Até agora, fora o FMI, parece que o povo se manifesta legitimamente e sem a desejada revolta pelas franjas.

Grande chapada de luva branca. Grande povo. A minha opinião continua a mesma, mas é salutar ver a panela de pressão soltar o pipo na rua...

Que tenha ressonância onde tem de ter.

 

PS - tive vergonha de ouvir declarações de certos sindicalistas das forças de segurança, mas espero não estar a agoirar antes do tempo.