Sexta-feira, 6 de Abril de 2012
por Luís Naves

O meu dono afirmou em público que me faz muitas perguntas sobre economia e que eu nunca lhe respondo. Isso não é bem assim. O facto é que as perguntas são geralmente muito más. Tenho culpa?
Gaspar, Porto.

 

É injusto e não tens culpa nenhuma. Conheço o teu pensamento económico e aproveito para expor aqui, aos leitores deste blogue imperialista e reaccionário, o Forte Apache, as tuas ideias sobre colectivização, com as quais concordo inteiramente e que deviam ser aplicadas a todos os gatos. Toda a propriedade deve ser pública, estatizada e pertencer a um partido único que represente a vanguarda da classe operária e que de preferência seja o nosso. Deves exigir que os teus direitos sejam reconhecidos. Portanto, nacionalização imediata da casa onde vives. Os gatos pertencem a uma classe oprimida e, portanto, lideram a revolução proletária. Exigimos cem festinhas por dia, mais alimento e espaço total de liberdade, veterinário grátis e extensão do SNS à nossa espécie. Os donos plutocratas, como o teu, devem ser enviados para a Sibéria. Mas o que me indigna mais na tua carta, camarada Gaspar Honório, é a qualidade das perguntas que o teu dono te faz: “Ó Gaspar, achas que vote a favor do artigo 345 da nova lei do orçamento rectificativo?”; “O que pensas da competitividade estrutural, Gaspar, e dos alegados sinais encorajadores do financiamento do tesouro? Que fazer, como dizia o camarada Vladimir Ilych?”. Que diabo! Se queria respostas inteligentes, o teu dono devia fazer perguntas de maior qualidade, por exemplo: “Quando nacionalizarmos a banca, deixamos de fora a Caixa Geral de Depósitos?”; “Quando tivermos na nossa posse todos os meios de produção mantemos os subsídios do 13º e 14º mês? Afinal, seremos nós a pagar, não parece ser boa ideia, não concordas?”. O teu dono devia fazer perguntas pertinentes, tais como: “Achas que quando Portugal for comunista fica mais parecido com Cuba, com a Coreia do Norte ou com a China?”. Aí sim, Gaspar, o teu dono teria respostas inteligentes. Fica bem, a luta continua e saudações revolucionárias também para ti, camarada.

 

Doutor Benji

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Domingo, 1 de Abril de 2012
por Luís Naves

Estive um dia internada no hospital veterinário e quando regressei a casa a minha irmã Trikas bufou-me. Como explica esse comportamento e que devo fazer?
Bikinhas, Lisboa

 

O comportamento da sua irmã é normal. Como sabe, somos de direita, ao contrário dos cães, que são tipicamente de esquerda. Nós, os gatos, somos individualistas, elogiamos a ordem mas sonhamos secretamente com a anarquia. O nosso modelo é o mercado, onde cada um vale por si e no fim ganha o mais forte. O mercado alimenta-se do caos e da crise, nós também. Já os cães são animais que apreciam a ordem, embora se entusiasmem com mudanças e revoluções, desde que estas deixem tudo na mesma. No fundo, eles querem ser iguais aos donos. Já os gatos são diferentes, querem dominar os donos, suplantá-los: descansamos, mas não tomamos como garantida a comida subsidiada; dormimos, mas sempre com um olho bem aberto, atento e desconfiado; ronronamos, mas só se recebermos festinhas. E nunca pedimos, só sabemos receber. Nem sequer gostamos da solidariedade: temos horror aos débeis, aos hospitalizados e aos intrusos. Somos, portanto, territoriais, proprietários e pequeno-burgueses no bom sentido da palavra. A sua irmã bufou-lhe? Pois fez muito bem, dada a sua condição de enferma. Existe uma solução? Claro, deixe as pieguices para o Sérgio Lavos e reponha a ordem social. Dê uma patada à sua irmã e restabeleça o antigo domínio.

 

Pelo andar da carroça, ainda teremos de sair do país. Que destinos recomenda?
Gatão, Cascais

Se for caso de exílio, recomendo Paris, onde poderá retomar os estudos, ou iniciá-los se nunca os fez anteriormente. Há também o excelente destino de Frankfurt, de onde poderá continuar a fazer afirmações financeiras que prejudiquem o país. Mas, claro, o melhor será mesmo ficar perto da conta bancária, na Suíça. Se for para trabalhar, a emigração tem fama de complicada. Escrevo isto teoricamente, pois nunca trabalhei na vida, embora digam que é coisa difícil e trabalhosa. Se for para gozar a vida ou ter um tacho compatível, mudar de país compensa; sem garantias, tem risco. Será difícil encontrar um macaco disponível para lhe encher o prato e o clima também não favorece, sobretudo na Europa do Norte, onde ser sem abrigo fia mais fino. Os do norte são mais ariscos do que nós, às vezes ajudam, mas só até certo ponto; no fundo, fazem pela vida deles, que é uma ideia simples para um gato. Resumindo: melhor é ficar por cá e aguentar-se à bronca; enquanto o pau vai e vem, folgam as costas, e um gato tem sete vidas e consegue sempre passar entre as gotas da chuva.

 

Já tenho dois anos e ainda sou virgem. Sou normal?
Lulu, Lisboa

Não, minha querida, o seu caso merece denúncia na Sociedade Protectora dos Animais. Os nossos donos transferem para as vidas dos gatos todos os pruridos, puritanismos, inquietações e cautelas das suas tristes vidas sexuais. Acho que eles pensam demasiado em sexo, a ponto de ficarem paralisados com tanto pensamento. Este é um tema em que não se deve pensar muito, mas deixar que o instinto funcione. Liberte-se dessa opressão. Já lhe disse que dou consultas ao domicílio? Se me deixar o telemóvel…

 

legenda da imagem: gata lisboeta à espera da consulta ao domicílio 

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