Sábado, 22 de Junho de 2013
por Pedro Correia

As rotinas matam o jornalismo. Nada afasta mais os consumidores de jornais e revistas do que saber de antemão o que irão ler (ou não irão ler, neste caso).

A falta de ideias, por carência absoluta de dinâmica editorial, tem contribuído para matar muitos títulos históricos da imprensa portuguesa: ninguém gosta de um jornalismo reverente, balofo, acomodado e previsível.

Tudo aquilo que a revista Sábado não é.

 

Folheio a mais recente edição e descubro nela várias peças que ilustram precisamente o que pretendo dizer:

 

- "O efeito dominó da crise", de Vítor Matos: um extenso artigo que documenta, com casos muito concretos, como os portugueses vão reduzindo o consumo - e até que ponto isso provoca reacções em cadeia. Ou seja, "quando um casal de funcionários públicos decide poupar nos ténis do filho", isso afecta a dona de uma sapataria, que por sua vez corta nas férias de Verão num hotel algarvio, que por sua vez se vê forçado a reduzir pessoal a quem não resta alternativa senão as rotas da emigração. E assim por diante.

 

- "O exame da Flávia, do Pedro, da Teresa e da Carolina", de Maria Henrique Espada: a recente greve dos professores, em dia de exames nacionais, vista do lado daqueles que não costumam ter as atenções mediáticas por não estarem organizados em "associações de classe". Os alunos. Em jeito de diário, em contagem decrescente. "Cheguei à sala e não havia professores. Nada. (...) Isto é mau", observa uma delas.

 

- "Querido Chefe de Estado", de Ricardo Dias Felner: o jornalista lembrou-se de escrever a 45 reis e presidentes uma mensagem com uma frase lacónica, em inglês. "A vida não seria a mesma sem si." Seis meses depois, dá conta aos leitores das respostas que recebeu - desde um texto com 1114 caracteres do Vaticano, num português irrepreensível, até às missivas em nome de Dilma Rousseff, Raúl Castro, a Rainha Margarida da Dinamarca e tantos mais. Obama não respondeu. Cavaco também não.

 

Nada previsível, nada rotineiro, nada maçador. Isto é bom jornalismo. E merece ser destacado.


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Terça-feira, 23 de Outubro de 2012
por Pedro Correia

 

Alguns são aprendizes, mas em Portugal só Augusto Cid é o mestre. O melhor cartunista português, exímio praticante da sátira política em forma de caricatura, cultor do salutar princípio castigat ridendo mores (que herdámos dos antepassados romanos), está hoje desempregado. O que é outro sintoma da decadência do nosso jornalismo. Em qualquer outro país, Cid seria disputado por todos os jornais - da esquerda, do centro ou da direita. Assinaria editoriais desenhados, escreveria colunas de opinião com bonecos, faria reportagens com o recurso à arte da caricatura, que domina como se fosse herdeiro directo de Rafael Bordalo Pinheiro, Francisco Valença e Stuart de Carvalhais. Nós, por cá, assobiamos para o ar e fingimos tantas vezes que o talento não existe enquanto prestamos tributo à mediocridade. Puro engano. Basta ler esta excelente entrevista assinada por Leonardo Ralha no Correio da Manhã: eis Cid no seu melhor, igual a si próprio, falando do mesmo modo que sempre desenhou. Sem punhos de renda, sem papas na língua.

Leiam a entrevista: vale a pena. Desde as histórias da tropa, durante a guerra em Angola, às atribulações provocadas pela investigação às misteriosas circunstâncias da morte de Francisco Sá Carneiro em Camarate, do 25 de Abril aos retratos falados de diversos protagonistas de quatro décadas da política nacional.

Um episódio revelador, em discurso directo, ocorrido quando Sá Carneiro era primeiro-ministro: «Além de militante [do PSD] desde Maio de 1974, sou o autor das famosas setas. Ingressei no jornal do partido, o Povo Livre, onde fazia cartoons, e estive lá até a AD ir para o Governo. Quando isso aconteceu, fui ter com o Sá Carneiro, de quem era bastante amigo, e disse-lhe: "O sr. dr. vai desculpar, mas uma coisa é fazer desenhos num órgão de um partido que está na oposição e outra é o partido chegar ao poder e eu passar a ter que fazer desenhos que o apoiem. Não contem mais comigo".»

E assim foi.

Há tempos, no jornal onde colaborava, reduziram-lhe o salário. Pouco depois, nova redução. Cid disse basta: passou à pré-reforma e agora dedica-se à escultura. «Cheguei a um ponto em que aquilo que ganhava não justificava o que fazia. Não é só desenhar. Isto implica muito tempo a pensar e a investigar até chegar ao desenho final», confessou.

Há momentos assim, que exigem a palavra não. Palavra que é quase lema obrigatório de um grande cartunista - a estirpe a que Augusto Cid sempre pertencerá.

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Sábado, 6 de Outubro de 2012
por Pedro Correia

 

A SIC está hoje de parabéns: há 20 anos, o panorama da televisão começou a mudar por completo graças ao aparecimento do primeiro canal privado, para escândalo dos defensores do monopólio estatal - os mesmos que também defendiam a imprensa estatizada e combateram a multiplicação das rádios enfim libertas da tutela do estado. A história da televisão portuguesa divide-se em dois grandes capítulos: antes e depois do aparecimento da SIC. E nada ilustra tão bem isto como um episódio há pouco recordado no Jornal da Noite especial evocativo deste 20º aniversário: a atrapalhação do candidato socialista António Guterres ao fazer uma promessa eleitoral nas legislativas de 1995.

Dizia Guterres: "Desejavelmente, nós deveríamos poder atingir, num prazo tão curto quanto possível, um nível da ordem dos 6% do Produto Interno Bruto em despesa de saúde."

Perguntou-lhe Ricardo Costa, repórter da SIC: "Isso é quanto, em dinheiro?"

De novo Guterres: "Eh... são... o Produto Interno Bruto são cerca de três mil milhões de contos... portanto, seis por cento... seis por cento de três mil milhões... eh... seis vezes três dezoito... eh... um milhão e... um milhão e... ou melhor... enfim, é fazer a conta."

Os tempos eram muito diferentes. Vários outros jornalistas registaram isto mas fizeram de conta que não tinham ouvido nada. "Acabámos por ter um exclusivo estranho, o exclusivo mais estranho da minha vida. Às oito da noite pusemos estas declarações no ar e mais ninguém pôs. Nenhuma televisão, nenhuma rádio. Acabámos por ter o exclusivo de uma coisa que toda a gente tinha gravado. Isto mudou de vez a relação entre os políticos e os jornalistas", recordou Ricardo Costa esta noite.

Muito mais revelador do que uma forma de fazer campanha política, com promessas que ficam por quantificar, este episódio é revelador da forma dominante de fazer jornalismo naquela época: por vezes, devido a um pacto de silêncio entre jornalistas, algumas das melhores histórias ficavam por contar.

A SIC acabou com isso.

A atrapalhação de Guterres ficou para a pequena história destes anos da política portuguesa. E a frase "É fazer a conta" também. Bom jornalismo é assim: às vezes basta uma simples pergunta para fazer a diferença.

Venham mais vinte anos. E mais vinte mil perguntas.

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Segunda-feira, 6 de Agosto de 2012
por Pedro Correia

 

Entre Janeiro e Abril, os jornais portugueses perderam 75 mil leitores. Esta é uma realidade dura e crua. Dever-se-á ao facto de os portugueses lerem menos? Nem por sombras. Os hábitos de leitura estão cada vez mais enraizados entre nós. Acontece, isso sim, que em Portugal os jornais são cada vez menos utilizados por pessoas que necessitam de informação. E refiro-me apenas ao conjunto dos jornais portugueses: a grande imprensa internacional, pelo contrário, tem marcado presença constante nos postos de venda entre nós. Mas é sobretudo à internet que os nossos compatriotas se habituaram a recorrer para estarem permanentemente informados.

Quem estará a errar? Os consumidores ou os produtores de informação?

Lamentavelmente, a culpa é dos jornais. E dou um exemplo recolhido da imprensa portuguesa de hoje. A propósito do falecimento da grande cantora mexicana Chavela Vargas, um dos maiores nomes da música latino-americana com expressão universal.

Eu era há muito admirador dela. E sei que Chavela tem largos milhares de fãs em Portugal.

Lamentavelmente, a sua morte passou quase despercebida na imprensa portuguesa. Procurei nos cinco jornais diários generalistas. Apenas um cumpriu neste caso a sua obrigação de informar. Foi o mais jovem de todos eles, o diário i, pela pena do jornalista António Rodrigues. Numa boa crónica inserida na última página do jornal, sob o título "Adeus, Doña Chavela. Beberei à sua memória". E com chamada de primeira página ("O último trago de Chavela Vargas").

O que fizeram os outros?

No Jornal de Notícias, nada. No Público, sempre tão zeloso dos seus pergaminhos culturais, idem aspas. No Correio da Manhã, sete linhas a uma coluna: "Chavela Vargas morre aos 93". No DN, também uma breve, também confinada a uma coluna, com escassas doze linhas de texto. E um título que não deveria lembrar a ninguém: "Cantora mexicana morre aos 93 anos".

Cantora mexicana? Que cantora?

Honra ao i, que merece os parabéns por ter cumprido o dever de informar. Ao contrário do que sucedeu com os outros. Felizmente comprei o El País e o El Mundo: ambos dedicaram várias páginas à "cantora mexicana", figura de fama planetária que ficou quase esquecida na nossa imprensa.


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Segunda-feira, 23 de Julho de 2012
por Pedro Correia

 

Aos jovens que o procuravam para lhe perguntar como conseguia captar imagens que nenhum outro repórter fotográfico era capaz de obter, Robert Capa costumava retorquir: "Eu estava lá. Se não te aproximares suficientemente, nunca conseguirás uma boa fotografia."

Lembrei-me da lição de jornalismo contida nesta frase quinta-feira passada, ao acompanhar as dramáticas imagens televisivas dos pavorosos incêndios que têm devastado muitas zonas do país, com destaque para a Madeira. Conhecida em todo o mundo pelo magnífico verde das suas paisagens, a ilha corre agora o risco de se transformar num mar de cinza.

Vou com frequência à Madeira: considero-a uma das minhas terras adoptivas. Dói-me profundamente a visão destas imagens das chamas a devorarem casas, quintas e florestas em zonas que já visitei demoradamente, com um deslumbramento que nunca se apaga.

Com grande parte da costa sul da ilha em chamas, os repórteres acorreram à região autónoma, mostrando aos portugueses a real dimensão desta tragédia. Estes repórteres, trabalhando sem horário, por vezes em condições duríssimas, prestaram um inestimável serviço público. Mesmo os dos canais privados, que nesta matéria se equivalem aos do canal público.

Foi precisamente num dos canais privados, a SIC, que vi a melhor reportagem desse dia. Assinada pela repórter Sara Antunes de Oliveira e pelo repórter de imagem Rui do Ó. Estavam tão perto da frente de incêndio que a dado momento tiveram de abandonar o local: um súbito golpe de vento deslocara as chamas na direcção deles.

Robert Capa aplaudiria este jornalismo que não se limita a observar à distância. Eu registei a assinalável coragem física desta equipa de reportagem da SIC. E também uma rápida entrevista de Sara Antunes de Oliveira a um chefe local dos bombeiros, presente no teatro das operações. A dado momento, alguém diz que há pessoas dentro de uma casa cercada pelas chamas. "Eu não lhe roubo mais tempo", diz de imediato a repórter ao chefe dos bombeiros. A recolha de declarações era importante, mas salvar vidas humanas era incomparavelmente mais urgente.

O jornalista competente nunca abdica do seu contributo cívico. Nem que perca uma boa entrevista por causa disso.

Imagem: SIC

 


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Quarta-feira, 18 de Julho de 2012
por Pedro Correia

 

Nelson Mandela - Os caminhos da liberdade: excelente reportagem de uma equipa da RTP encabeçada pelo jornalista António Mateus. No dia em que Nelson Mandela - um dos maiores ícones universais do nosso tempo - festeja 94 anos vale a pena recordar a evolução da África do Sul desde os dias de chumbo do regime racista de P. W. Botha até à actualidade.

António Mateus - que conhece bem a África do Sul, onde foi correspondente durante largos anos - recolhe os testemunhos de dois obreiros desta admirável transformação do mais próspero país do continente africano, anteriormente banido da comunidade internacional, num exemplo de multirracialismo, democracia e liberdade: Desmond Tutu e Frederik de Klerk. Ambos galardoados com o Nobel da Paz - o primeiro em 1984, pelo seu corajoso combate aos esbirros do apartheid, o segundo dez anos depois (em parceria com Mandela) por ter liderado enquanto chefe do Estado o processo de transição, que atingiu um dos seus momentos culminantes na hora da libertação do histórico líder do Congresso Nacional Africano, em Fevereiro de 1990, acompanhada com emoção em todo o mundo.

De Klerk, num depoimento emocionado, diz uma frase carregada de sabedoria: «Não devemos deixar que o futuro seja minado pelas amarguras do passado.»

Os cínicos de serviço, que lançaram os maiores anátemas à Primavera árabe iniciada em 2011 - e já traduzida em eleições na Tunísia, no Egipto e na Líbia - deviam ver com atenção esta reportagem.

Fazia-lhes bem.


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Domingo, 24 de Junho de 2012
por Pedro Correia

No campeonato da cobertura do Euro 2012 pelas televisões portuguesas é já possível dizer que a equipa campeã é a da RTP. Com as melhores reportagens, as melhores peças de bastidores, as melhores análises, os melhores comentadores. Sempre num tom afável, empático, coloquial. Sem recorrer ao execrável futebolês que chegou a estar em voga noutras fases finais de grandes competições futebolísticas pela voz de protagonistas que desta vez rumaram a outras paragens.

Fica aqui o merecido elogio à equipa da televisão pública, que inclui António Esteves como pivô, Hugo Gilberto como repórter na Ucrânia, Helder Conduto como narrador dos jogos, Álvaro Costa com as suas divertidas "janelas digitais" e um naipe de comentadores de luxo dos quais destaco António Tadeia, Bruno Prata e o multifacetado Carlos Daniel. Comentadores que gostam de futebol, percebem de futebol e sabem transmitir em português fluente os seus conhecimentos aos telespectadores que têm acompanhado este Europeu com crescente expectativa. As entrevistas exclusivas a Fernando Santos (por telemóvel, ainda no autocarro da comitiva grega, logo após a vitória contra a Rússia) e Pepe foram exemplos de peças que merecem aplauso.

No jornalismo também é possível marcar golos. A RTP tem provado isso.


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Segunda-feira, 28 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

Aos 89 anos, recém-festejados, aquele que é o maior pensador português contemporâneo continua a proporcionar-nos as mais estimulantes reflexões sobre o destino lusitano e a nossa relação sempre dilemática com o mundo que nos rodeia. Talvez porque se trate do ponto de vista de um "estrangeirado": Eduardo Lourenço observa há seis décadas Portugal a partir do exterior, que é sempre de onde melhor se analisa esta velha nação que durante séculos condenou alguns dos seus melhores filhos ao exílio.

Uma entrevista resulta quando consegue surpreender o leitor e levá-lo a reflectir no meio do ruído informativo que a todo o momento nos devolve o eco de ecos anteriores. É o caso desta, publicada no diário i e conduzida por Maria Ramos Silva, que revela um mérito raro: a jornalista sabe dialogar com o entrevistado, sabendo de antemão que a notícia ali é o que ele diz, não o que ela possa pensar.

«Temos uma identidade logo ao nascer que nos é dada pelo facto de nascermos de uma mãe. Depois há que reencontrar a mãe. De alguma forma perdemo-nos da mãe e a mãe se perde de nós. O homem tem que reinventar uma coisa que lhe dê uma ideia que existe. Mas uma pessoa não tem uma identidade como quem tem uma estatuazinha dentro de si. Temos a impressão que não somos nós que vemos o sol mas é o sol que nos vê, antes de mais. Quando se perde isso ficamos numa solidão absoluta. Pessoa deu conta disso como ninguém e teve que inventar de uma maneira virtual esse outro tu, sem o qual era um Ulisses à procura de uma Penélope, que para ele nunca existiu. Toda a gente se reconhece nessa solidão, a solidão de que estamos num mundo em que não conhecemos o sentido do começo, nem do meio nem do fim.»

Palavras lapidares de mestre Lourenço, que nas suas frequentes viagens ao país natal traz sempre na bagagem um exemplar d' Os Lusíadas. Palavras que continuamos a ter o privilégio de escutar através da escrita.


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Domingo, 20 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

Começou por ser um pesadelo. Depois parecia um sonho inatingível. Mas tornou-se realidade: há precisamente dez anos Timor-Leste conquistou a independência. O jornal i fez uma excelente reportagem em Díli, assinada por Mónica Menezes, acompanhando o último dia de José Ramos-Horta como Presidente do mais jovem país de língua oficial portuguesa antes de ceder a chefia do Estado a Taur Matan Ruak. É uma reportagem cheia de pormenores deliciosos, com o próprio Ramos-Horta a servir de anfitrião em sua casa - na presença da mãe, D. Natalina - e de motorista, ao volante de um caddy azul, sem seguranças. O Nobel da Paz de 1996 age com a desenvoltura de um cidadão comum: o facto de ter convivido com os grande do mundo não lhe subiu à cabeça.

Ramos-Horta ri e faz rir. "Buzina a quem passa. Acena aos que ainda ficam incrédulos por verem o Presidente da República ali mesmo ao seu lado." E confidencia inesperadamente à jornalista: "Como sou meio preguiçoso a dobrar camisas, peço à minha irmã. Só quando estou para viajar é que penso que dava jeito ter uma mulher."

Leiam: tenho a certeza de que vão gostar. É um exemplo de bom jornalismo.

Foto: António Pedro Santos (jornal i)


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