Sábado, 8 de Dezembro de 2012
por Fernando Moreira de Sá


Quase a chegar aos quarenta olho para os anos que já percorri e continuo com o mesmo sentimento: saudades? É complicado. Continuo a acreditar no futuro, continuo a gostar do momento presente mesmo tendo excelentes recordações do passado. Saudades? Só do futuro, como dizia o outro.

 

Por vezes ouço alguns amigos a falar sobre os tempos de adolescência com um brilho de saudade nos olhos. Obviamente, recordo os grandes momentos dessa época: as músicas, as brincadeiras, as festas, as enormes loucuras. Esses tempos em que chegava às Antas logo pela manhã para ver o jogo dos juniores do meu Porto e a seguir o jogo no pavilhão Américo de Sá, terminando a romaria no velhinho Estádio das Antas a sofrer, a gritar e de vez em quando a trocar uns sopapos. Depois vieram os tempos da loucura com a música, com os U2, os Joy Division, os Sétima e os Heróis do Mar sem esquecer a fase estranha a preto e cinzento dos Mission, Sister of Mercy e mesmo dos The Cure. As paixões e, logo depois, a acalmia com o namoro. As leituras compulsivas, a fase nacionalista que “descambou” na fase regionalista fruto do enorme amor pela minha cidade e pela região, com influências caseiras a ajudar. E a política, sempre ela, uma espécie de narcótico. Saudade? Não, recordações. Boas recordações. A vida é um constante caminhar.

 

Outros suspiram pelo tempo em que eram solteiros. Ou que não tinham filhos e responsabilidades. Sinceramente, ouço sempre com atenção e até acho piada. Eu apenas suspiro por aqueles tempos em que as férias de verão eram três meses aos quais se juntavam mais dois com o Natal, a Páscoa e o Carnaval. Disso suspiro, fruto de enorme prazer que tenho em viajar e a actual falta de disponibilidade para “matar” esse vício e, já agora, de a Ryanair ainda não voar para a América nem para a Ásia.

 

E o que dizer aos que sentem saudades dos tempos de vertigem dos anos noventa ou dos primeiros anos deste século? É verdade, este é um tempo de dificuldades. De desespero para muitos. Palavras como “desemprego”, “precariedade”, “pobreza” voltaram a fazer parte do nosso vocabulário diário. Pouco ou nada se pode dizer. Ao contrário do que afirmam alguns poetas, as palavras não matam a fome, não combatem o desespero. Fujo das palavras nestes tempos mesmo que me apeteça escrever: “esperança”, “acreditar”, “fazer”. Nada é pior que a doença e, até prova em contrário, nada é pior que a morte.

 

Agora, saudade? Só tenho saudade do que ainda não fiz e quero fazer. Sempre foi esse o meu espírito. Porventura serei um idiota. Provavelmente. Uma coisa sei, por ser assim tenho conseguido mudar sempre que tal é fundamental, olhar em frente quando a vida a isso obriga e adaptar-me às circunstâncias, sejam más ou boas. Sobretudo, relativizar. Ainda hoje expliquei esta coisa do relativizar. Quase a chegar ao jantar prometido, fui incomodado por um daqueles seres que ainda não descobriram que não têm vida, só vidinha, e a minha parceira se espantou com a minha calma.  Como é que não me passei com semelhante ser, afirmou ela. Incomodar uma pessoa num início de noite de sábado com umas tretas de quem tem de mostrar serviço ao chefe? Fácil, expliquei, relativizando.

 

É o que faço à saudade. Relativizar. 


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