Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013
por José Meireles Graça

Correia de Campos foi odiado enquanto Ministro da Saúde: andava por aí a encerrar maternidades e postos de saúde, para desespero das populações locais, esquerdistas em geral e gente preocupada com a desertificação do interior e os pergaminhos das terras.

 

Já o antecessor, Luis Filipe Pereira, também não saiu em odor de santidade: um e outro tinham um grande respeito pela obra do Santo conimbricense Arnaut, mas não eram inteiramente alheios ao facto de o SNS, embora com existência imorredoira garantida pela Constituição, reclamar um módico de racionalidade - afinal a coisa é sobretudo financiada por impostos e estes têm uma desagradável tendência a não serem tão elásticos como a procura de saúde a golpes de química, cirurgias e baixas médicas.

 

A extremosa Ana Jorge, pediatra de formação, veio sossegar os espíritos com o expediente de pouco fazer para além de dar aulas magistrais na televisão sobre como lavar as mãos, a fim de evitar epidemias de gripe. Nos intervalos das lições de puericultura encontrava ainda tempo para dizer coisas sobre o seu pelouro, que se me varreram da lembrança. Suponho que seja lembrada com ternura.

 

Correia deixou a impressão mais duradoura. E em obediência ao princípio "atrás de mim virá quem de mim bom fará" não é surpreendente que encontre audiência simpática para se aliviar das suas opiniões. Acha, por exemplo, que a única "coisa boa" que o actual sistema de saúde dos funcionários públicos tem é a "livre escolha".

 

A ADSE, realmente, tem esta coisa boa: a livre escolha. Mas Correia não lhe atribui grande importância, preocupando-se antes com as coisas más que o sistema tem, das quais a principal é "não ser integrado". Este defeito misterioso e fatal parece consistir no facto de o doente andar a saltar de médico para médico, sendo vítima de armadilhas: se tem um cancro e cai nas garras de um cirurgião, faz de chofre uma operação; mas se o médico for um daqueles que fazem quimioterapia (não sei a designação da especialidade, esta parte ouvi na Sic-N), zás - faz quimioterapia primeiro.

 

Confesso que fiquei perplexo: as clínicas privadas são pelos vistos um covil de patifes - a vigarice começa logo na fase inicial do tratamento. E os funcionários públicos são notoriamente mentecaptos: vão à faca ou não vão dependendo do primeiro que aparece.

 

A troika terá recomendado o fim deste e de outros subsistemas - não fui conferir, tenho mais que fazer do que espiolhar documentos chatos.

 

Mas ocorre-me lembrar que os credores não estarão, nem têm que estar, muito preocupados com a saúde dos cidadãos, mas sim com o que ela custa ao erário público. E se demonstradamente a ADSE custasse mais do que o SNS (do que aliás duvido) o que haveria a fazer seria reduzir as comparticipações do Estado, aumentando os descontos para o efeito (actualmente 1,5%, convindo não esquecer que o funcionário adianta a totalidade do custo do acto médico e não ocupa o pessoal e instalações públicas, para o sustento dos quais todavia contribuiu com os impostos gerais). No limite, dar aos próprios funcionários o direito de opção por um ou outro sistema.

 

Mas não, os funcionários não sabem o que lhes convém - Correia é que sabe. E não hesita em atiçar o resto da população contra os funcionários - malditos, que têm o direito de escolher, uma coisa francamente desprezível; e obrigam o Orçamento a transferir recursos para a ADSE - como se o que o que o SNS poupa por não ser usado não devesse fazer parte da comparação de custos.

 

Comme quoi, entre Correia, que toma os funcionários por idiotas, e Ana, que toma os cidadãos por juvenis, não há um mundo de diferença, a despeito das aparências.

 

Declaração de interesses: Não sou funcionário público e não uso o SNS.


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