Sexta-feira, 20 de Julho de 2012
por Luís Naves

Instalou-se na blogosfera um dos mitos mais peculiares, segundo o qual existem dois tipos de jornalismo, o bom, que se caracteriza por uma pureza lava mais branco, e o mau, que é uma pérfida manipulação conspirativa. Neste post de Nuno Lobo explodem algumas ilusões e preconceitos sobre o meio jornalístico que resultam deste mito.
Não me vou alongar, nem serei exaustivo na minha crítica ao post de Nuno lobo. Há de imediato um problema: o que é o "jornalismo interpretativo", em oposição a outra coisa qualquer? Por definição, o jornalismo é uma interpretação do real, envolve sempre um ponto de vista. Não há notícias neutras, nem reportagens, nem crónicas, nem entrevistas. Qualquer jornalista que afirme o inverso já perdeu a neutralidade, para além de negar o próprio uso da inteligência. Aliás, até a estupidez consegue interpretar uma parte do que está à sua frente.
Também são estranhas as frases do autor "a política não incumbe ao jornalista" ou os "relatos meramente objectivos". Tudo isto me parece ser uma ilusão. Na realidade, o jornalismo sempre esteve ligado à política activa. Jornalismo e política são gémeos siameses, em democracia ou ditadura.  No caso da democracia, ninguém elege os jornalistas, mas estes estão (tal como os políticos) num  ramo que depende da credibilidade, o que explica a circunstância de tantas carreiras serem efémeras. Ao contrário do que afirma Nuno Lobo, o escrutínio faz-se em cada momento.
Levada ao extremo, a tese do jornalismo bacteriologicamente puro pode levar à limitação dos direitos cívicos, ao empobrecimento extremo da matéria jornalística. O autor até podia ter levantado um problema bem mais interessante: a política activa disfarçada de comentário político.

Quando ouço argumentos sobre a separação entre jornalismo e política, a necessidade de criar severos mecanismos de escrutínio e regulação, sorrio sempre. Convém ao poder, a qualquer poder, dispor de uma imprensa dócil. A suposta 'neutralidade' significa apenas domesticar o ponto de vista e a interpretação dos factos, não é mais do que excluir todas as hipóteses de interpretação, menos uma.

Vivemos na época da relatividade. Neutro, nem sequer o cemitério.

 

Aqui, um texto mais elaborado com a mesma argumentação. 


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Quinta-feira, 7 de Junho de 2012
por Luís Naves

Ao longo da sua vida, o escritor americano Ray Bradbury, cuja morte aos 91 anos foi ontem anunciada, escreveu numerosas histórias de fantasia e de ficção científica, explorando os infinitos territórios da imaginação. Farenheit 451 é um clássico, de que François Truffaut fez um filme memorável. Tenho muita admiração pelos contos de O Homem Ilustrado e pelas Crónicas Marcianas, duas obras-primas da literatura.
A imaginação delirante, o estilo poético, a concisão da prosa, estes são alguns dos aspectos mais poderosos de Ray Bradbury, mas é interessante notar que existe em pano de fundo uma interessante crítica do mundo tecnológico em que vivemos. O autor não acreditava nos benefícios automáticos das inovações e, acima de tudo, não acreditava na desumanização que acompanha muito do progresso a que assistimos. Afirmou isso em várias entrevistas, que nos devíamos libertar da tirania das máquinas à nossa volta, o que não deixa de ser curioso num especialista em ficção científica.


Algumas das suas histórias são sobre a alienação humana, tão visível no nosso moderno défice de atenção. O telemóvel que apita, a espera do e-mail sem importância, a incapacidade de meditar. Em Farenheit 451, os livros são destruídos devido ao perigo das ideias complicadas que contêm. A perda da memória não é lamentada nessa civilização distópica, pelo contrário, trata-se de uma consequência vantajosa, pois a complexidade implica conflito e deve ser combatida.
Bradbury não antecipou a realidade e hoje não há bombeiros em busca de livros subversivos, mas a cultura que dá acesso à profundidade da alma humana tornou-se num corpo estranho, pois o mundo em que vivemos anda baseado no efémero e no superficial. A complexidade dá indesejáveis dores de cabeça, por isso protegemos as nossas crianças de pensarem demasiado, para não terem dúvidas existenciais e não se questionarem. É uma forma de mundo novo em que não se queimam livros, mas onde estes se tornaram vagamente obsoletos.
Num dos contos de O Homem Ilustrado, um livro do início dos anos 50, há uma máquina que fabrica mundos virtuais que acabam por se transformar em realidade. O autor estava provavelmente a pensar na televisão (que dava os primeiros passos de massificação) mas o texto lembra os jogos de computador onde tantos adolescentes passam horas a fio, as famílias transformadas em incómodo, na confusão entre os dois planos. A tecnologia infiltrou-se em toda a nossa vida, impedindo ou dificultando o pensamento profundo que determina a verdadeira originalidade. Acima de tudo, deixámos de perceber o limites do que é real e do que é virtual. A ficção científica (Philip K. Dick, Bradbury, entre outros) ajudou a levar o tema para a literatura, compreendendo que a questão é crucial para definir a actualidade.
Um dos contos mais espectaculares de Bradbury, A Sound of Thunder (na imagem) que foi também adaptado ao cinema, mostra com esplendor a arrogância tecnológica do homem moderno, a fazer de aprendiz de feiticeiro. A ideia do conto é devastadora e simples: uma pequena borboleta arrancada ao passado muda toda a História e aí vem a onda do tempo, com o seu trovão, a apagar o presente. 
Num mundo caracterizado pela obsessão daquilo que é novo, num mundo que despreza o seu passado, Bradbury era um raro original.

 

Uma versão mais apressada desta crónica foi publicada aqui, onde encontram outros temas...


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Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
por Luís Naves

Ao ser anunciado o Prémio Camões deste ano, pensei que desconhecia totalmente o vencedor, o contista brasileiro Dalton Trevisan. Afinal, tinha dois dos seus contos numa antologia na minha biblioteca e lera um dos textos, O Vampiro de Curitiba, prosa cheia de humor e com linguagem atrevida, brilhante.
A antologia tem por título Os Cem Melhores Contos Brasileiros e li a maioria dos textos, mas aparentemente passei ao lado do segundo conto de Trevisan que consta da colecção, Uma Vela por Dario (ou se li quando comprei o livro, não apanhei bem a ideia, esquecendo o essencial).
O conto é ainda superior ao outro, de uma crueldade que nos tira a respiração. Um homem de aspecto rico e bem vestido chamado Dario, que caminha pela rua, tem uma síncope e fica prostrado, perante o interesse crescente dos transeuntes. Em frases curtas, incisivas, o escritor conta como a multidão se alimenta do moribundo e, depois, do cadáver, numa mistura de indiferença e curiosidade mórbida. O homem é literalmente despido, roubado, abandonado à sua morte, perde a identidade e classe social. Termina como simples corpo anónimo e abandonado, quase indigno de pena. O conto é brutal e bastavam estas quatro ou cinco páginas para mostrar as enormes qualidades deste escritor.

A literatura portuguesa, infelizmente, não tem a tradição do conto. Os leitores não gostam de comprar livros com histórias curtas e os novos escritores têm de se afirmar imediatamente no romance. Não há publicações especializadas, como acontece em outros países, e mesmo os autores mais experientes evitam o formato curto, concentrando a sua arte em obras de maior fôlego.
A escrita de contos é difícil, a começar pela necessidade de ter uma ideia forte, criar atmosfera em poucas linhas, definir personagens em pinceladas quase invisíveis, inventar diálogos económicos e ainda um remate eficaz. Não há espaço para digressões inúteis, para figuras secundárias ou reflexões complicadas. Mais difícil ainda é conseguir a originalidade, um estilo pessoal, a linguagem certa.
Uma Vela por Dario tem tudo isto e ainda aquele elemento de golpe de asa sem o qual o conto era apenas interessante. No caso, é a vela que um miúdo descalço coloca ao lado do corpo de Dario, e que o vento apaga. Sem a vela do título, o texto perderia a força. O truque dos mestres é mais fácil de ver na pintura: com um dedo tapamos a pequenina mancha de cor ou o detalhe na composição e a obra de génio afunda-se na banalidade. Tiramos o dedo, vemos de novo o conjunto, e brilha um esplendor tremendo.

 

Encontrei aqui o conto de Trevisan, já depois de escrever o post, que também podem ler neste lugar.

 


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Sábado, 19 de Maio de 2012
por Luís Naves

Dois vencedores do Prémio Nobel da Literatura (Orhan Pamuk e Mario Vargas Llosa) escreveram recentemente pequenos ensaios, com a característica comum do estilo elegante e da riqueza de ideias.
O escritor turco publicou um livro já traduzido em português O Romancista Ingénuo e o Sentimental (Ed. Presença) que junta as suas conferências sobre literatura, na Universidade de Harvard. Estas conferências são uma velha série que já deu pelo menos um outro livro famoso sobre a arte da escrita, Aspects of the Novel, de E. M. Forster (este último escrito nos anos 20, é provável que esteja em português, mas só conheço a versão inglesa).
Julgo que o livro de Pamuk não é apenas sobre a escrita, mas sobre o prazer da leitura. O texto está repleto de observações acessíveis, nada pretensiosas ou demasiado técnicas. A certo ponto, o escritor explica como um dos seus prazeres na leitura de romances é o de tentar adivinhar aquilo que num texto é imaginário ou vivido. O autor explora de forma muito inteligente conceitos como a autenticidade, os jogos entre o real e o imaginário, a fragmentação e a noção de que os grandes romances têm um “centro”, enfim, chamem-lhe eixo ou núcleo, mais ou menos escondido e cuja busca é, para Pamuk, o essencial do prazer da leitura. “A escrita do romance, para mim, é a arte de falar de coisas importantes como se fossem insignificantes e de coisas insignificantes como se fossem importantes”, escreve o romancista na pág. 120 deste breve ensaio que não se esgota numa única leitura.


O peruano Vargas Llosa publicou entretanto em Espanha um trabalho, La civilización del espectáculo,  (Alfaguara) que certamente não tardará a ser traduzido em Portugal, pois é o seu primeiro livro escrito depois do prémio. A obra é bem mais pessimista do que a de Pamuk, tratando-se de uma reflexão sobre a degradação da cultura e o declínio dos intelectuais e das elites. “Na civilização do espectáculo, o intelectual só interessa se seguir o jogo da moda, tornando-se num bobo” (pág. 46), afirma Vargas Llosa, descrente da qualidade da literatura contemporânea e muito crítico da falta de originalidade e do excesso de niilismo nas artes. “Nos nossos dias, o que se espera dos artistas não é o talento nem a destreza, mas a pose e o escândalo, os seus atrevimentos não são mais do que as máscaras de um novo conformismo” (pág. 49).
O livro explora outros aspectos do quotidiano, da educação à política, a banalização do poder e das ideias, a superficialidade nas próprias relações humanas, o consumismo desenfreado. São amplamente citados e discutidos outros autores que exploraram esta ideia da civilização do espectáculo (a expressão não é de Vargas Llosa) e talvez o autor seja demasiado pessimista na sua visão de que a cultura está a ponto de desaparecer. Estas ideias foram exploradas pelo romancista peruano em crónicas antigas, algumas das quais são incluídas no volume. É inegável que, tal como diz Vargas Llosa, hoje triunfa o frívolo e o entretenimento, ao mesmo tempo que os intelectuais (como os concebemos no passado) se tornam invisíveis na nossa sociedade, desprovidos de qualquer influência. Enfim, este é um livro muito bem escrito e de grande clareza, cuja rápida tradução será bem útil.

 

Publicado também aqui


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Domingo, 13 de Maio de 2012
por Luís Naves

A frase do primeiro-ministro sobre os desempregados é de extrema infelicidade. Não há volta a dar. Ver no desemprego uma oportunidade é, obviamente, disparate, embora essa situação possa ser oportunidade para uma minoria de pessoas, como foi para o autor destas linhas, já num passado remoto. O sentido da frase, julgo eu, é de que ninguém pode baixar os braços e cair no desespero. Fácil de dizer, claro.

Que Pedro Passos Coelho queira falar do estigma social que atinge os desempregados já me parece mais positivo, pois a sociedade portuguesa tem de se adaptar a níveis elevados de desemprego e as pessoas não podem continuar, lá num cantinho das suas mentalidades, a pensar que um desempregado é uma pessoa que não se esforçou. Estas ideias persistem, infelizmente, e começam no Estado.

A vida de um desempregado é um pouco como a de Sísifo. Condenado a carregar um peso até ao topo da montanha, há sempre um momento em que vem tudo por ali abaixo e é preciso recomeçar.

 

Dito isto, julgo que a grande comoção mediática em torno da declaração infeliz revela o que aqui já escrevi sobre a nossa preocupação constante com a espuma, como se fazer política fosse melgar o juízo ao povo. Sabem? Falo daquela situação da melga que conseguiu ficar dentro do quarto e que nos acorda ao longo da noite por diversas vezes com o seu zumbido irritante e monótono; segue-se a fase da caça, mas a melga é sempre mais esperta do que o sonolento desesperado. E no fim ninguém dorme.

A frase não revela mais do que um governo que repete constantes inépcias comunicacionais e que em cada novo episódio consegue ficar mal na fotografia. O anterior governo era bom na comunicação e mau a governar. Este, que está a cumprir um programa difícil, revela assustadora incapacidade para comunicar a urgência das suas decisões. E aqui acho que nos devemos comparar com a Grécia e juntar à reflexão as numerosas observações que têm sido feitas sobre o caso grego.

 


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Sábado, 12 de Maio de 2012
por Luís Naves

Criou alguma sensação a descoberta, na cidade arqueológica de Xúltun, na Guatemala, de tabelas interpretadas como um calendário Maia 500 anos mais antigo do que os já conhecidos. O achado confirma que a previsão Maia do fim do mundo em Dezembro de 2012 não passa de uma interpretação errada dos complexos calendários deste povo. Os historiadores sabem que o calendário Maia é infinito e nesta cultura não existe conceito do fim do tempo, mas o que dizem não é ouvido.
Por muito que o repitam, as pessoas preferem acreditar em mitos, tal como no passado os próprio Maias acreditaram nas histórias contidas num livro que por milagre sobreviveu ao colapso desta civilização, o Popol Vuh, o “livro da comunidade”, onde se descreve em termos muito obscuros a criação do mundo, com um início curiosamente semelhante ao de outras narrativas que serviram de base a religiões: “Esta é a história de como tudo estava em suspenso, tudo calmo, em silêncio. Sem movimento, parado, e o imenso céu estava vazio”.
Num dos capítulos seguintes, contam-se as aventuras de duas personagens inocentes, Hunahpú e Xbalanqué, rapazes concebidos de forma miraculosa por uma caveira ligada à Terra e escondida na floresta, cujo cuspo impregna uma jovem. Pois, os dois heróis são levados para o submundo e conhecem vários espaços, como a casa da perdição, a do frio, a dos morcegos. É ali que os deuses de Xibalba, o lugar do medo, tentam matar os dois rapazes. A história prossegue com o regresso dos dois heróis e o seu triunfo sobre os deuses.

 


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Segunda-feira, 23 de Abril de 2012
por Luís Naves

Outros autores já se pronunciaram aqui sobre o resultado da primeira volta das eleições francesas, mas aproveito para acrescentar algumas observações.

 

1. Nicolas Sarkozy terá aparentemente grande dificuldade em vencer estas eleições, sobretudo tendo em conta que o interesse da Frente Nacional estará na sua derrota. O partido de extrema-direita pode garantir um resultado verdadeiramente histórico nas legislativas de Junho, caso Sarkozy perca as presidenciais. Veremos talvez a FN a entrar no parlamento. Assim, muitos eleitores de Marine Le Pen poderão escolher o socialista François Hollande, sobretudo se este fizer algumas declarações que, sem alienar a esquerda, possam convencer a extrema-direita. Se garantir um em cada cinco votos de Le Pen, Hollande será provavelmente eleito.

 

2. Apesar das regras sobre o equilíbrio de tempos de antena, a imprensa francesa é extremamente hostil a Sarkozy. Estes ódios têm uma componente irracional (as tiradas grosseiras do presidente, as suas maneiras pequeno-burguesas, o gosto do dinheiro, a escassez de leituras sofisticadas), mas há também um elemento da cultura política francesa que não podemos ignorar: Sarkozy é associado ao grande capital, ao poder financeiro, aos interesses das elites e ao liberalismo. Em França, estar do lado dos ricos é claramente um problema.

 

3. Os analistas falam da extrema-direita, mas não somam os resultados de Marine Le Pen com os de Jean-Luc Mélenchon. Dá sensivelmente 30%. Dito de outra forma: os candidatos lunáticos têm tantos votos como François Hollande. Na realidade, Le Pen e Mélenchon são ambos anti-capitalistas e anti-elites, fazem promessas irrealizáveis que provocariam um rápido colapso económico da França. A maior diferença é que a candidata da FN suavizou os aspectos mais xenófobos do seu programa e deu alguma credibilidade à tradicional bandeira da restrição da imigração, mais parecendo uma activista do Tea Party. É cada vez mais difícil manter o cordão sanitário que implica ignorar a opinião de um em cada cinco franceses. Por seu turno, Mélenchon é um retórico, cujo programa condenaria a França à irrelevância. Trata-se de populismo radical de esquerda e direita, possivelmente uma indicação do futuro da Europa. Estas forças vão crescer em todos os países, alimentam-se do voto de protesto, do voto desesperado, do voto dos que estão fartos. Mas estes eleitores vão decidir a segunda volta e, pelos vistos, não vão votar com a cabeça.

 


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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012
por Luís Naves

Tenho dificuldade em falar na televisão. Além da inibição da minha timidez, sinto que o tempo corre demasiado depressa. Quero dizer tudo ao mesmo tempo e parece que a cabeça paralisa.
Fui hoje convidado para falar na TVI24 e deixei demasiado por dizer. Senti frustração ao ouvir os comentários dos ouvintes, semelhantes às frases que ouço no autocarro ou em conversas de café, mesmo entre pessoas informadas.
Portugal está sob resgate devido ao excesso de endividamento em que se deixou cair. O país tem problemas de competitividade e gera sistemáticos desequilíbrios externos. Sem a troika e as suas receitas, não haverá dinheiro para pagar as contas e o país não poderá financiar os seus gastos. Mas muitas pessoas continuam a culpar o remédio, na ilusão de que é possível fazer uma ruptura com quem nos mantém à tona.
Relatórios como aquele que o FMI divulgou ontem são mal interpretados na imprensa. A ideia que transparece é de que a organização contesta a austeridade portuguesa. Ora, o FMI é uma das três entidades que estão a impor ao país austeridade brutal concentrada em pouco tempo. Não há aqui nenhuma contestação (os avisos são dirigidos à Alemanha) nem existe previsão de que o euro esteja em perigo iminente, apenas a admissão de que isto introduz tal incerteza que não vale a pena fazer cenários.

Portugal tem de executar reformas difíceis e precisa da ajuda externa. Diabolizar a troika é disparate. Outro disparate é diabolizar o Tratado Orçamental que sustenta a lógica do resgate. Mais tarde ou mais cedo teríamos de o ratificar e não vejo desvantagem em se fazer mais cedo.

 

Na mesma ocasião, tive de comentar a intenção do governo de reduzir as indemnizações por despedimento. A medida está no memorando da troika (não quantificada) e as indemnizações altas são um obstáculo à contratação e um dos motivos do desemprego jovem. Mas não consigo perceber a urgência. Esta redução vai criar desemprego e em camadas de trabalhadores mais velhos. A taxa já está em 15% e os próprios técnicos da comissão mostram perplexidade pelo seu crescimento veloz.
Reduzir as indemnizações é deitar combustível para a fogueira. Haverá mais pessoas com idades avançadas a perderem os seus postos de trabalho. E isto terá custos sociais graves, aumentando também o desemprego de longa duração e a pobreza.
A medida pode criar emprego jovem a prazo, mas entretanto terá impacto na segurança social. As mensagens são contraditórias: por um lado, pretende-se aumentar a vida contributiva dos trabalhadores, por exemplo através do aumento da idade mínima da reforma antecipada, por outro lado encurta-se a vida contributiva desses trabalhadores, através do desemprego.
Enfim, gostava de ter dito isto com toda a clareza. Teria dito também que os custos da crise se concentram excessivamente na classe média e nos trabalhadores e contribuintes. Muitos portugueses gostariam de perceber melhor a estratégia de quem nos governa, para não continuarem a sentir que já não lhes resta chão debaixo dos pés.   


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Quinta-feira, 5 de Abril de 2012
por Luís Naves

O que se passa com os departamentos de marketing das grandes empresas? Vi na rua uma publicidade que mostra criancinhas elogiando o trabalho de seus pais a favor do grande oligopólio eléctrico nacional. A ideia pareceu-me engraçada e quase me convenceu a pagar as rendas excessivas, mas então li as letras pequeninas. Os pais eram identificados como "colaboradores" da empresa. As suas invenções eram óptimas, o seu trabalho excelente, as inovações incríveis, mas não passavam de "colaboradores".
Recuso esta moda pouco inocente da palavra "colaborador". O que faço é trabalho remunerado, não é voluntariado. Não colaboro, trabalho. E custa-me ver como os trabalhadores admitem esta novilíngua. Aliás, como consumidor da EDP, quando vi aquela palavra na publicidade, apeteceu-me mudar de companhia ou deixar de pagar impostos para sustentar os lucros fáceis. Infelizmente, não o posso fazer.
Não sei o que se passa com os departamentos de marketing destas empresas, só sei que estão muito enganados e que estes tiros saem todos pela culatra.

 

Ao longo dos últimos anos, Portugal embarcou numa ilusão que criou um Estado social insustentável. O problema não é só nacional. A Escandinávia descobriu nos anos 90 que o seu Estado Providência não podia ser pago e fez reformas dolorosas; a Alemanha imitou os escandinavos na primeira década deste século, com a sorte de o fazer ainda em anos de vacas gordas. O resto da Europa está a proceder ao emagrecimento dos seus sistemas em contra-ciclo, o que agrava a crise e torna a criação de modelos sustentáveis quase impossível.
Do ponto de vista dos trabalhadores, este processo implica redução de direitos e degradação dos serviços públicos, dúvidas sobre a pensão de reforma e maior angústia económica, nomeadamente grande precariedade no emprego. As pessoas pagam mais impostos e têm menos regalias; pagam mais pelos serviços públicos e recebem menos oferta; o ensino, a saúde e a justiça ficam mais caros, os transportes menos eficazes. Ao mesmo tempo, aumentam as disparidades económicas entre as classes e torna-se mais difícil a mobilidade social. Muitas pessoas empobrecem.
A esquerda tenta iludir-se com o mito de que tudo podia ficar como está, mas sabe no seu íntimo que o sistema é insustentável. Daí a confusão no discurso destes partidos e a sua falta de convicção. As recentes eleições espanholas e o falso debate em França mostram bem este problema: ninguém é eleito a dizer a verdade, mas também não é possível fazer promessas totalmente falsas. Mariano Rajoy não confessou o que ia fazer, Nicolas Sarkozy também evita falar sobre as reformas de que o seu país não poderá escapar no segundo mandato. As democracias europeias estão com graves problemas.

 

A digressão parece-me importante para explicar a transferência de poder incluída numa palavra de aparência inócua. Os trabalhadores têm salários, direitos, dignidade, empregos, estatuto; um colaborador tem precariedade, é dispensável e não implica o mesmo respeito; os trabalhadores são todos iguais, os colaboradores todos diferentes; os trabalhadores unem-se, os colaboradores competem entre si. A palavra colaborador é dócil e complacente, voluntariosa e amável.
Tudo isto é sinal dos tempos e os nossos tempos não são simples. A mão-de-obra está cada vez mais ao serviço da empresa, cujas obrigações em relação aos seus trabalhadores são cada vez menores. Somos custos financeiros, como aliás começam a ser os próprios eleitores. Os contribuintes estão ao serviço do oligopólio, cujas obrigações com o país que o sustenta são mínimas. As pessoas tornaram-se descartáveis, mesmo as mais brilhantes.  As palavras nunca são inocentes.
É por isto que recuso ser colaborador, mesmo quando compreendo que a nossa sociedade tem de mudar.

 

nota: não tenho uma visão mítica da luta dos trabalhadores, mas a palavra que motiva esta crónica soa perigosamente próxima do insulto.


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Quarta-feira, 4 de Abril de 2012
por Luís Naves

Em vários blogues li textos de autores muito indignados com a actualização do corrector do Word, que agora assinala como erros as palavras alteradas pelo novo acordo ortográfico. Penso que a reacção foi francamente desproporcionada.
Escrevo todos os dias segundo as regras do novo acordo e uso nos meus blogues a antiga ortografia. Talvez consiga fazer isso durante algum tempo, mas é inevitável que comece a usar uma única forma nas palavras que escrevo de duas maneiras, já que existe aqui um desperdício de memória. Ao todo, o novo acordo impõe umas 500 alterações, das quais talvez 400 nem se notem. Há disparates? Claro, alguns dos quais empobrecem a língua, tal como demonstraram autores que li sobre este assunto, como Vasco Graça Moura ou Pedro Mexia.

 

Confesso a minha ignorância sobre a ciência do tema e se me aflige escrever a palavra Egito, não me incomodou, esta manhã, escrever "prova direta" num texto. Já faço confusões e tive de perguntar se antes do acordo se escrevia "directa". No jornal onde escrevo, foi decidido adoptar a nova ortografia e não faz qualquer sentido deixar a responsabilidade da correcção para a secção de fecho, dando trabalho a outras pessoas. Escrever segundo a ortografia cessante equivale a cometer erros que outros terão de corrigir. Por isso, há quatro meses que me esforço por escrever os textos de jornal segundo a nova ortografia.
O meu jornal, o DN, já passou por isto antes. Nas colecções antigas, que são património nacional, o editorial chamava-se "Assumptos do Dia" e aparecia na primeira coluna da primeira página, com textos que são uma delícia de boa escripta.
Nos blogues, onde as regras são individuais, tento ao máximo evitar erros de ortografia, sabendo que não há copy-desk (e dou a minha dose de lapsos lamentáveis).

O uso de correctores faz parte da vida de pessoas que, como eu, têm de escrever diariamente e em quantidade. As ferramentas proporcionadas pela técnica moderna facilitam muito o nosso trabalho. Lembro-me ainda da época em que os redactores escreviam com máquinas pesadonas e barulhentas, em folhas chamadas "linguados" onde caberiam umas 250 palavras e que chegavam à composição meio rasuradas pelos mais trapalhões (do tempo do chumbo só ouvi falar, os linguados eram compridos e escritos à mão, daí o nome engraçado).

Para alguém que escreva ocasionalmente, o corrector no programa de escrita é ainda mais importante. Mau ou bom, existe um acordo internacional que o Estado português negociou e assinou de boa-fé e livre vontade. Más ou boas, as regras ortográficas são aquelas. Mesmo que no futuro ainda haja alterações em algumas palavras, existe uma mudança que progressivamente será adoptada pelos que escrevem regularmente e também pelos que não fazem disso profissão.
O programa em causa é um ferramenta de escrita usada pelas pessoas que escrevem, bem ou mal, pouco ou muito. Se a tecnologia permite, então esta ferramenta deve adoptar quanto antes o novo acordo, pois é desta forma que a maioria irá escrever no futuro, incluindo quem estiver na escola a usar o Word. A indignação em relação à actualização do programa não faz sentido, por ser elitista, exagerar no impacto real e, em vários casos, invocar uma privacidade que manifestamente neste caso estará deslocada. O corrector limita-se a assinalar as palavras, não as altera. Ninguém é forçado a corrigir.


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Sábado, 31 de Março de 2012
por Luís Naves

No lançamento do livro de Fernando Pires “Os Meus 50 anos no Diário de Notícias” estariam umas cem pessoas e achei que estavam poucas, pois ali se resumia toda a história por contar do passado glorioso dos grandes jornais de Lisboa. Depois, pensando melhor, lembrei-me dos muitos que ali faltavam e cuja saudade estava na lembrança dos presentes. O tempo leva sempre a melhor sobre a vida e faltavam ali para cima de 50, uma multidão levada pela morte e que nos teria acompanhado no aplauso ao “chefe Pires”.
Não vou falar do livro, pois ali está também um pedaço da minha vida, mas serve esta crónica para relatar a sensação cruel que tive de como tudo muda à nossa volta. E, agora, no crepúsculo dos jornais, quando o passado se ergue como algo que não regressa nunca, olho para o caminho que percorri e vejo com nostalgia, pela primeira vez, o que na altura nem cheguei a ver. É um momento amargo, perceber que passei ao lado disto, que passei ao lado daquilo, que me distraí com outras ideias, que me escapou a simpatia daquela pessoa, ou o seu talento, que àquele desprezei, o outro nunca entendi. Demasiado tarde.


Os jornais que perdemos eram feitos por pessoas empenhadas, mas não era só isso, os de hoje também são. As redacções tinham dois tipos de jornalistas, os burocratas e os intelectuais, e uso as duas palavras sem malícia (eram isso mesmo). As duas tribos tinham respeito uma pela outra e completavam-se, numa espécie de casamento. Os que trabalhavam na maquinaria eram disciplinados e aos criativos mais malucos dava-se espaço para respirar. Os jornais eram sítio de conflito, claro, mas dominados por um código de ética e por hierarquias difusas (um tipo que não mandasse nada e tivesse a melhor ideia era sempre ouvido). Fernando Pires, no seu livro, menciona essa ética jornalística, o gosto pela verdade, e refere o exemplo da palavra “camarada”, usada por todos, mas sem qualquer ideologia. As pessoas tratavam-se por “tu”. O “chefe” Pires impunha um tal respeito que foi uma das únicas pessoas que sempre tratei por “senhor”.
O jornalismo mudou. É hoje uma profissão mais ligada ao poder e ao dinheiro, dominada por gestores segundo os quais entre uma salsicha e uma informação não existe diferença substancial. Pelo caminho ficou a inocência representada por personagens coloridas e figuras de romance. Nas redacções pairavam “cromos” e artistas, havia conversas delirantes, intelectuais e doutores, uns que pareciam não fazer nada mas que tinham a frase certa, outros que trabalhavam como uns loucos e casavam com o jornal, pareciam viver no jornal, respiravam o jornal. A diversidade perdeu-se. Hoje, os redactores são jovens e o seu único objectivo é enriquecer, embora estejam transformados em operários da escrita.
Há muitos anos, entrevistei um realizador de cinema, Samuel Fuller, e ele contou-me que tinha sido jornalista, começara como repórter, contratado por um velho chefe de redacção, à maneira do “chefe” Pires. Contou-me a história: “Queres ser jornalista?”, perguntou-lhe o veterano; Fuller respondeu que sim; “Queres ser rico?”. Fuller disse que sim; “Então, não sejas jornalista”, avisou o chefe.

 

Nota: Obrigado, Fernando Pires, por tudo aquilo que me ensinou.


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