Segunda-feira, 10 de Setembro de 2012
por José Meireles Graça

O meu lugar na hierarquia da casa não me permite muitas vezes ver os programas de TV que por mim escolheria, a menos que mudasse de divisão, atitude que por sua vez seria vista com alguma circunspecção. Daí que, enquanto me entretenho com o computador, vá ouvindo coisas surpreendentes sobre operações, estéticas, doenças, gravidezes inesperadas, gente horrivelmente vestida que, depois de aconselhada, fica horrivelmente pirosa - e culinária. Nesta avultam programas Ingleses ou Americanos, dois países cujos cidadãos, por razões diferentes, se alimentam geralmente de lixo.

 

Os programas são naturalmente em língua inglesa e a palavra mais ouvida, para descrever as mais retorcidas invenções culinárias, é "delicious".

 

Isto é extraordinário: há a cozinha mediterrânica, com enormes diferenças de tradição de uns países para outros e, dentro deles, de umas regiões para outras; e há as cozinhas chinesas e a japonesa; há a francesa, a italiana, a nossa; e haverá, na África, nas Américas e em todo o lado - até mesmo no Reino Unido - coisas que valerá a pena conhecer se consagradas pela tradição.

 

Mas não vemos nada disto. Porquê? Porque não tem criatividade. Do chef espera-se que seja criativo. Não importa que não saiba nada de história culinária, nem das tradições da sua região, ou até de região alguma, e que seja incapaz da realização decente de um prato canónico. Sabe fazer reduções e inventar coisas como sinfonia de lombos de sardinha com estragão e um zest de funcho em sua brandade? Embrulha as criações em palavreado modernaço ou artístico ou ainda em preocupações com dietética e saúde? Ora aí está - só lhe falta ser citado pelas pessoas certas e publicitado nos sítios certos.

 

Esta praga está também entre nós: ainda há tempos uma sobremesa me explodiu na boca, numa multiplicidade de sabores todos eles requintados, após o que, felizmente, a respectiva conta explodiu no bolso de quem fez o favor de me convidar. Era uma criação. Delicious, diria, se alguém me perguntasse.

 

Se este Olimpo dos treteiros servisse apenas para confortar o ego dos gourmets - outra praga - ainda vá. Mas, por desgraça nossa, a criatividade vai de par com o desprezo pelo que é tradicional, pelas maneiras como dantes se fazia, pela simplicidade e pela lentidão.

 

Vive-se depressa e come-se o que é feito depressa. Uma parte disso é talvez necessária, resulta do modo de vida que temos. Mas, como em outras coisas, não se faz mister que imaginemos que os nossos avós eram uns rematados imbecis que nem sabiam comer. Sabiam - nós é que andamos esquecidos. É bem verdade que as coisas esquecem muito a quem não sabe.


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