D. Januário Torgal Ferreira
Não tive a possibilidade de ver em directo a intervenção de D. Januário Torgal Ferreira na TVI24. Li o muito que se escreveu sobre o que disse, tanto a favor como contra. Hoje, numa conferência realizada no Porto, não se falava noutra coisa. Confesso que, por razões pessoais, evitei ir ver a polémica intervenção.
Tenho pelo D. Januário Torgal Ferreira uma enorme consideração. Em solteiro, na minha casa, sempre ouvi falar de D. Januário com enorme estima. Sobretudo o meu Pai, nada dado a idolatrar quem quer que fosse nem era homem de fácil elogio. Porém, ouvi-lhe sempre rasgados elogios a D. Januário com quem, várias vezes, partilhou mesa num dos melhores colégios do Norte de Portugal - cujo centenário se celebra em breve.
Ao longo dos anos, com a naturalidade de se estar mais atento às palavras daqueles de quem se ouve falar entre os nossos, acompanhei boa parte das suas intervenções públicas. Sempre o vi como um homem do antes quebrar que torcer, de uma frontalidade desarmante. Sobretudo para um Bispo. Nem sempre concordando com ele, é certo. Por vezes, fruto dessa frontalidade de quem diz o que pensa, não pensou no que disse. Acontece a todos.
Ao ler os blogues e nas redes sociais tanta opinião sobre o caso, acabei por não resistir e fui ver a gravação do programa. Aproveito o resumo do Luís Naves:
D. Januário Torgal Ferreira procurou deixar claro que não estava a fazer política. Concordo. Aquilo foi mais ao estilo de conversa de café ou de táxi. O problema é que um programa de televisão, como uma entrevista a um jornal ou uma declaração na rádio não é nem uma mesa de café nem tão pouco espaço de treta circunstancial de táxi. Nem um Bispo é um "bitaiteiro". como se diz na minha terra. D. Januário atirou lama em direcção a uma multidão. Fez como a polícia nas cargas efectuadas nas manifestações: bateu em tudo o que mexe, culpados, inocentes, incautos, distraídos e tipos que só estavam a passar naquele momento.
Destaco as palavras sensatas do Ministro da Defesa: "Eu espero que o senhor bispo tenha apresentado na PGR os factos que fundamentam essa declaração, até porque o senhor bispo deve obediência às regras da Igreja e o falso testemunho é matéria que não obedece às regras da Igreja", afirmou José Pedro Aguiar-Branco.
D. Januário Torgal Ferreira pode (e deve) criticar quem muito bem lhe apetecer. Pode dizer deste governo, a exemplo do que disse de outros, cobras e lagartos. Pode. Contudo, quando afirma que alguém, sejam eles governantes, padeiros, advogados, carpinteiros ou médicos, são corruptos terá de fazer acompanhar as suas palavras de um outro conjunto: quem e porquê. A ele, como a qualquer outro, não se lhe exige a prova, essa fica para os tribunais. O que se exige é a seriedade de não misturar alhos com bugalhos. Se sabe o que afirma, que seja consequente e o Ministro da Defesa até teve o cuidado de lhe indicar o caminho a seguir.
Se o fizer terá, uma vez mais, o respeito daqueles que, como eu, sempre o admiraram. Se o não fizer, lamento profundamente a terrível mancha no seu currículo e fico com pena. A pena de quem vê alguém que sempre respeitou a não passar de um mero "bitaiteiro" de tasco.