Terça-feira, 12 de Junho de 2012
por José Meireles Graça

É fatal - no 10 de Junho políticos e próceres convidados dizem coisas. Tem que ser: o feriado é civil e as personalidades civis, e às vezes militares, fazem prova de vida. Os cidadãos, que não ouvem os discursos nem vêem as cerimónias, ficariam porém zangados se as cerimónias não se fizessem - a gente paga aos políticos, entre outras coisas, para cumprir rituais da vida colectiva. E já que os detestamos o ano todo, há uma pequena satisfação perversa em sabermos que se aborrecem uns aos outros de vez em quando.


Não vi nem ouvi nada, estive a trabalhar no quintal. Mas inteirei-me do principal discurso através deste magnífico relato - foi como se lá tivesse estado.


Passeando pelo papel velho da imprensa de ontem, encontrei o relato das cerimónias do 10 de Junho na Madeira e li em diagonal, à espera de tropeçar nos tropos incendiários do potentado local - por muito que se goste de música clássica às vezes não se resiste a algumas chocarrices da música pimba.


Jardim desiludiu: Disse que "Portugal não é o retângulo ibérico que definha, mas é o mundo que os portugueses constroem", uma referência injusta àqueles emigrantes que vão para o bâtiment, ou uma homenagem hiperbólica aos que vão simplesmente ganhar a vida que o país natal lhes negou - é conforme. Mas de Cubanos, ameaças de independência, insultos - nada.


Um orador pouco dado a arroubos líricos, porém, disse:

"Quero alertar para uma situação que vem ocorrendo na Alfândega do Aeroporto, na chegada de voos, principalmente da África do Sul e Venezuela. Centenas de emigrantes queixam-se da abordagem de vários funcionários, a forma déspota, como são tratados na hora que os fazem abrir a bagagem", afirmou Olavo Manica". O jornalista acrescenta que "Segundo este representante das comunidades, alguns destes que vieram de férias à Madeira sentiram-se como 'criminosos' e afirmaram não ter intenção de regressar".


E este discurso, para mim, será o único que vale a pena lembrar. Porque os outros, os oficiais, são como a casula dos padres no fim da missa: arrumam-se para voltarem a servir na próxima cerimónia litúrgica. E este pode ter sido útil a alguma comunidade portuguesa - se é que os participantes na festa não estavam todos a dormir.


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