Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012
por Alexandre Poço

Foi hoje aprovado o Orçamento Rectificativo para 2012 com os votos a favor da maioria e os votos contra de toda a oposição. Sim, o PS também votou contra. Apesar de se ter abstido na generalidade, hoje, na votação final, o PS votou contra. E um dos motivos apresentados foi: o aval concedido à Madeira no valor de 1,1 milhões de euros, resultante de uma alteração na Comissão Parlamentar do Orçamento e Finanças. Ora, isto dito assim, não indica nada de estranho. Cada partido toma as decisões que decide tomar e vota em consonância com essas decisões. Porém, na concepção que tenho das coisas em política, os actos devem ser coerentes e é aqui que o PS falha. Senão vejamos - já há muito tempo que o PS e os socialistas na imprensa e redes sociais criticam transferências de fundos para a região autónoma da Madeira. Aquando do caso das dívidas ocultas, rasgaram as vestes e afirmavam que não tinham de pagar as dívidas do governo de Alberto João Jardim, pois não devíamos ser solidários com um governo despesista.


Ora, esta celeuma sobre as dívidas e os dinheiros transferidos para a Madeira desaparece quando se trata de financiamento para a política do Partido Socialista no continente. Desde que foi eleito líder do PS, António José Seguro e por arrasto, o seu partido, sugerem que a solução para esta crise é "europeia", já sendo célebre a expressão de Seguro que pede "mais tempo e mais dinheiro", embora ultimamente, talvez por sugestão de um assessor de comunicação que lhe deve ter dito que soava mal pedir "mais dinheiro", a fórmula seja "mais tempo e menos juros" (cai melhor no ouvido). E é isto que é incoerente, para não dizer mais, no Partido Socialista: dizem que nem mais um cêntimo deve ser transferido para as megalomanias de Alberto João Jardim, ao mesmo tempo, que dizem que a Europa tem a obrigação de nos dar mais dinheiro. Ou seja, o PS não quer financiar as marinas vazias e os estádios de futebol de Jardim, mas quer dinheiro (dos outros, de preferência) para prosseguir com o "desenvolvimento de sectores estratégios", provavelmente acentes em Aeroportos como o de Beja, auto-estradas para corridas de Fórmula 1 de aves de rapina ou para colocar candeeiros, que poderiam muito bem estar no Guggenheim em escolas secundárias.


Mais, o Partido Socialista fala da necessidade de uma "Europa solidária", onde os contribuintes dos países mais ricos têm o dever moral de contribuir para o despesismo que reina a sul, mas ofende-se como uma virgem por cada cêntimo que é transferido para a também despesista Madeira. A despesa feita às mãos do PS é virtuosa, às mãos do PSD é sacanice e aldrabice, só pode ser isso. Talvez seja a cor partidária do governo regional, talvez seja apenas cavalgar a onda do sentimento que reina no continente contra aquela região autónoma. Justificações à parte, o que esta questão revela é uma grande incoerência: A Europa, a Merkel e o BCE têm de ser solidária connosco, nós não temos de ser solidários com a Madeira. 


tiro de Alexandre Poço
tiro único | comentar | gosto pois!

Quinta-feira, 29 de Março de 2012
por José Meireles Graça

Comecei* por fazer umas coisas num escritório: usava óculos, lia muito, parecia esperto, precisava de trabalhar - a cunha funcionou. O patrão, um sacana paternalista que pagava mal, achava-me graça e deixou-me fazer uns estudos - cheguei a guarda-livros.

A contabilidade era uma coisa simples, a estabilidade legislativa muita, os fiscais uns ferrabrases que se compravam, em caso de necessidade, por um preço módico, os impostos moderados - a vida de guarda-livros era, para quem tivesse alma de manga-de-alpaca, uma boa vida, se a empresa fosse sólida - e era.

Depois veio a Revolução, que acolhi com alegria: estava farto dos bonzos engravatados e barrigudos do regime, da atmosfera opressiva, do palavreado gasto e oco do Estado Novo, dos jornais chatos, da corrupçãozinha modesta e institucionalizada, dos livros, pela maior parte merdeiros, que se liam às escondidas porque eram do contra e estavam proibidos, do medo de falar alto e bom som no café, da falta dos filmes e revistas com gajas nuas... - ide pentear monos pró Brasil, seu bando de fássistas.

Depois, a malta que andava até ali pelo exílio, as prisões e a clandestinidade, tomou conta do proscénio - e foi o que se viu.

Esse tempo passou. E ficou assente, e continua, que cada qual diz o que quer quando quer - este Vosso criado usa essa liberdade com liberalidade, tranquilo na certeza de que, quem não gostar - põe na beirinha do prato.

Pois sim. Mas sucede que os operários, naquele tempo, tinham emprego e uma motorizada, fumavam e bebiam; e a classe média começou nos anos sessenta a ter o seu carrito, a sua televisão, o seu frigorífico, o seu módico de assistência - o País crescia como nunca havia crescido antes nem voltou a crescer depois.

Também não se ignora o que veio a seguir: a motorizada foi substituída pelo carro novo, o utilitário pela gama média, a televisão pelo plasma, ou lá o que é, a quarta-classe pelo 19º ano, o 19º ano pelo curso superior e este pelo mestrado - os licenciados já não se limitam a dizer asneiras, fazem-no com mestria. E eu fui promovido a técnico de contas, por via semântica.

Uma parte deste progresso foi tecnológica - é tudo mais eficiente e mais barato; e outra foi do crédito, com o qual sucessivos governos compraram votos.

Estamos na fase de pagar - se conseguirmos - o calote.

 

Mas os filhos dos antigos operários não têm emprego, e por isso emigram. E esta emigração não é a mesma do antigamente, porque dantes se despovoavam as aldeias de cavadores miseráveis; e agora se despovoam as cidades de jovens com formação que, ainda que atamancada, está a anos-luz da dos Pais.

Em paralelo, sub-repticiamente, o Estado Novo, morto de morte matada, e o breve fogacho comunista, incorporado no regime como protestatário de serviço, foram sendo substituídos pelo Estado igualitário politicamente correcto. E o antigo operário, e já agora os filhos, e já agora os outros, já não fuma, porque o nanny state lhe tornou, via preço, o tabaco inacessível; não vai ao tasco porque a ASAE lhe transformou o estabelecimento numa loja sueca com consultor para saber de que cor devem ser exactamente os cabos das facas; não usa a motorizada porque tem o automóvel, que aliás não usa porque não tem dinheiro para pagar o combustível e as portagens; vive no terror de perder o emprego, porque, se o perder, perde também a casa, que lhe afiançaram ser dele; e pertence finalmente à classe média, porque esta desceu ao nível dele.

Têm todos, operários e colarinhos brancos, agora irmanados, conta no banco e ligação à internet. As contas servem para os bancos os induzirem a comprar a crédito o lixo de que não precisam e para os tornar objecto de todo o tipo de exacções, usuras e abusos. E, em conjunto com a administração electrónica, a via verde, os cartões de crédito, o desaparecimento do secretismo bancário, a legislação contra o enriquecimento ilícito (e, crescentemente, o enriquecimento, ponto) e o reforço demencial dos poderes da Administração Pública, em particular da Fiscal, para que o Estado saiba exactamente quem ganha o quê, como, onde, onde vai, o que consome, e a que horas.

Em troca, dizem-nos para levarmos guarda-chuva se chover, nos agasalharmos se estiver frio, informam-nos da cor do alerta em que está a nossa região e qualquer director-geral com risca ao meio e aspecto ridículo se julga autorizado a verberar-nos os vícios, tal como uma ministra com alma de enfermeira num lar de terceira idade não se acha grotesca a ensinar-nos a lavar as mãos.

 

Agora até o dinheirinho em papel vai ser ilegalizado: uma empresa gastar sem o Estado saber o quê, nem com quem? Era o que faltava - empresas são quadrilhas de ladrões, salvo prova em contrário.

E se o Estado vai dentro das empresas, que são pessoas colectivas, dizer o que os donos podem e não fazer, por que carga de água não há-de fazer o mesmo com as pessoas singulares? Dêem-lhes tempo - o software precisa de ser rodado.

É por isso que, à força de me tirarem liberdades, uso aquela que ainda está relativamente intocada para dizer que já estive mais longe de ter - o que diz o título.

 

* Não comecei nada, dá-me jeito dizer assim.

tags:

tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | ver comentários (11) | gosto pois!

Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
por Pedro M Froufe

Dinheirinho vs. Autorização de residência!

 

O exemplo irlandês, neste particular, é muito interessante! Esta ideia, uns tempos antes, teria dado especial jeito a várias pessoas…por exemplo, Kadhafi, Mubarak. E até era capaz de ser um negócio que excederia as expectativas do Governo irlandês (por exemplo, o ex-ditador líbio parece –  segundo o que foi veiculado, na época, na imprensa, – que tinha umas contas e umas  aplicações muitíssimo consideráveis na “nossa” Caixa Geral de Depósitos).

 

Será que poderemos aproveitar a ideia?

Quem é que estará interessado (excluindo ex-ditadores e/ou “cidadãos do mundo”, com problemas com a justiça dos seus países de origem) em comprar uma autorização de residência aqui, em Portugal, mediante a aquisição de 2 milhões de títulos da nossa dívida pública?… Bom,  bem vistas as coisas, quanto é que vale o nosso tão precisoso sol? E o clima sempre ameno? E a gastronomia? E, e…..


tiro de Pedro M Froufe
tiro único | comentar | gosto pois!


Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
11 comentários
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds