Segunda-feira, 3 de Junho de 2013
por Luís Naves

 

Muitos dos que lastimam os horrores da austeridade são os mesmos que poucas mudanças fizeram nas suas vidas ao longo destes seis anos de crise. Sofrer na pele nem sempre é ter acesso ao protesto, sobretudo num País a duas velocidades, há tanto tempo dirigido por corporações de interesses limitados e onde uma maioria silenciosa só é ouvida em dias de eleições.
Nos jornais e nas redes sociais que as elites consomem, triunfou uma narrativa neo-realista que descreve os problemas portugueses de forma sentimental, com o povo em luta e o governo cruel do outro lado, apoiando-se na pérfida troika. É tudo a preto e branco, com bons e maus, terríveis injustiças que nos são impostas por razões obscuras. Os partidos já nem questionam esta visão e, tendo entrado em campanha eleitoral, usam-na sempre que podem. Ela dará alguns votos, suponho.


Na realidade, os sacrifícios desta crise são desiguais e nem todos pagam pela mesma bitola. Parte do país mergulhou no abismo e aguenta em silêncio. Outra parte foi atingida de raspão pela crise e vive numa zona de conforto muito sua, sem dispensar o fofinho das alcatifas e os pequenos luxos burgueses. A bolha inclui os decisores, que só ouvem bajulações ou protestos organizados.

As elites nacionais são fracas e os nossos intelectuais pensam pouco. O país tem manifesta impreparação para o debate.
O que mais me espanta é ver a gritaria dos que reclamam contra efeitos que não os atingem, sobretudo ex-governantes que falharam quando estiveram no poder.
Também é surpreendente ver tanta gente a exigir, na mesma frase, o respeito estrito pela Constituição e a demissão de um governo com maioria na Assembleia. Como se Portugal tivesse soberania para a instabilidade!
Fico perplexo ao ouvir críticas motivadas por ódios pessoais e sem qualquer pista sobre as soluções para os problemas do mundo real.


Como fazemos? Quem paga? Rasgamos o memorando e saímos do euro? Será isso melhor do que cumprir? Renegociar o quê, as metas do défice? Mas já renegociámos duas vezes as metas do défice. O que há mais para renegociar? Os juros? Mas isso também já foi renegociado. O que são políticas de crescimento versus políticas de austeridade? É criar emprego subsidiado? Mas com que dinheiro? E onde? No Estado? Para quem? E sendo isso, como podemos cumprir os termos do resgate e, no futuro, o tratado orçamental? Com novos impostos? Mas não os devíamos estar a baixar?
Gostaria de ouvir mais vezes as raras pessoas sensatas e as perguntas urgentes, mas não tenho assim tantas ilusões.


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