Sexta-feira, 5 de Julho de 2013
por Luís Naves

Observações superficiais são muitas vezes acompanhadas de interpretações que nos impedem de ver a realidade. É o caso deste post de Rui Carmo, em O Insurgente, onde a propósito da Irmandade Muçulmana e da crise egípcia se mostra a foto de um religioso a passar revista a tropas bósnias muçulmanas das SS, durante a Segunda Guerra Mundial. O contexto não interessa ao autor, cuja mensagem é simples: os irmãos muçulmanos são fascistas.
Pouco importa que o homem da foto, Amin al-Husseini, fosse na altura ex-grande mufti de Jerusalém (não era do Cairo). Palestiniano nacionalista, tinha sido afastado pelos ingleses e abrigara-se junto dos inimigos destes, tendo ajudado os nazis a mobilizar duas divisões SS muçulmanas (albanesa e bósnia), no contexto do conflito balcânico. Pouco importa que houvesse na altura muçulmanos bósnios dos dois lados da barricada. Pouco importa que este homem fosse uma autoridade religiosa de segunda categoria e um criminoso de guerra que franceses e ingleses, depois do conflito, tenham optado por não transformar em mártir.

 

A ligação aos Irmãos Muçulmanos é curiosa. A demonização deste movimento justifica o golpe militar e ajuda aos argumentos de que a democracia é boa, mas não é para todos. Era o que diziam os líderes militares egípcios para justificar o regime autoritário.
Estas ideias não são novas. Nos anos 20, as democracias liberais que se tinham formado na Europa sofreram um forte recuo e foram substituídas por regimes autoritários. Os liberais disseram na altura que, no fundo, só ingleses e escandinavos estavam preparados para a democracia burguesa europeia.

 

No Egipto, os Irmãos Muçulmanos podem ser acusados de abuso de poder, mas venceram de forma esmagadora todas as eleições livres que até agora se realizaram. O que se passou no Cairo não foi mais do que um golpe militar, mesmo com a sociedade dividida e sendo as elites favoráveis ao derrube do presidente Morsi.
A democracia não se esgota nas urnas, mas elas não podem ser ignoradas ou substituídas pela rua. Misturar Irmãos Muçulmanos com o grande mufti de Jerusalém e as tropas bósnias das SS é perder de vista o mínimo de realidade.   

Espero que no Egipto seja possível o entendimento entre as diferentes famílias políticas. Lembro também que os islamitas estão divididos em dois grupos, sendo o partido oriundo dos Irmãos Muçulmanos o menos radical. Salafistas e Irmandade chegaram a ter mais de dois terços do eleitorado.


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Segunda-feira, 25 de Junho de 2012
por Francisco Castelo Branco

Quando Mubarak foi deposto há ano e meio, temi que o país fosse um tomar um rumo que não o da liberdade e da democracia. Não que a ditadura de Hosni Mubarak fosse a solução, mas que ele conseguia manter na clandestinidade certos grupos que poderiam desestabilizar o país e a região, lá isso ele conseguiu.

No entanto, a Primavera Árabe acabou por chegar ao Cairo e com ele retirar o antigo líder egipcío da cadeira do poder.

Volvido um ano e meio de intensa confusão, protestos e indefinição, eis que a Irmandade Muçulmana consegue chegar ao poder, 84 anos depois de muita clandestinidade. Demorou quase uma década mas alcançou o poder com a vitória de ontem de Mohamed Morsy. Ainda não sabemos qual será o rumo que o país tomará, nem tão pouco a atitude que os Estados Unidos terão em conta, mas depois de terem tirado o tapete a Mubarak, quase de certeza que não estarão contentes com o resultado de ontem, pelo que haverá muitas desconfianças em relação à Irmandade Muçulmana, dentro e fora do Cairo.

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Quinta-feira, 14 de Junho de 2012
por Alexandre Guerra


A poucas horas das eleições presidenciais no Egipto eis que surge uma verdadeira pérola de propaganda política, com o mais recente anúncio que está a ser divulgado por um canal satélite do Governo egípcio. Mohamed El Dahshan, no blogue Transitions do site da Wired, descreve o enredo.

Um jovem entra num café, com um ambiente descontraido e que ostenta nas suas paredes vários cartazes com slogans revolucionários, e senta-se à mesa com outros três jovens, que personificam um qualquer estudante egípcio e até um palestiniano, por causa do lenço que uma rapariga traz ao pescoço.

A conversa gira à volta de temas quotidianos, tais como política, inflação, problemas de transportes, desemprego, enfim, assuntos que diariamente enchem as páginas dos jornais.

Mas, o jovem que se sentara à mesa vai escutando atentamento o que vai sendo dito, numa clara missão de "intelligence". E perante o que ouve chega a dizer: "Really?" De imediato, envia um sms com a informação recolhida que julga ser muito valiosa . Momentos depois uma voz off diz: "Toda a palavra tem um preço; uma palavra pode salvar uma nação."

Com este anúncio, pretende-se criar um sentimento de medo entre a população, incutindo a ideia de que existem ameaças externas para desestabilizar o Egipto. Através desta mensagem tem-se como objectivo "silenciar" as vozes mais activas e revolucionárias, que se fazem ouvir sobretudo nas camadas mais jovens quando estão em contacto com turistas.

O mais irónico de toda esta história é que o anúncio já começou a ser alvo de gozo, sendo muito dificilmente levado a sério.


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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012
por Pedro Correia

 

Não tenho, naturalmente, uma palavra a retirar ao que escrevi faz agora um ano sobre a revolução egípcia.

Ficam alguns excertos, para avivar memórias:

 

Contra as Cassandras. «No Irão, a clique teocrática não tem motivos para se congratular com as manifestações no Egipto, um país onde 20 milhões de pessoas – cerca de um quarto da população – utilizam regularmente a Internet. No Cairo, por estes dias, foi possível ver muçulmanos e cristãos orar em conjunto. Ali não se queimou uma só bandeira americana nem se gritaram palavras de ódio contra Israel.
O fracasso da “revolução islâmica”, há 32 anos, serve aliás de aviso e de vacina a novos movimentos destinados a destituir ditaduras: podem não saber ao certo por onde vão nem para onde vão, mas todos sabem que não irão por aí.»

 

Contra as bempensâncias. «Uma revolta popular pacífica, ordeira, participadíssima, onde as únicas bandeiras são as nacionais, deita abaixo uma tirania. Sem necessidade de intervenção dos marines norte-americanos, sem líderes "carismáticos", sem partidos ou igrejas a "organizar" as multidões.

Devia ser motivo de congratulação em todo o mundo democrático. Mas não é. Em redutos de opinião, bem entrincheirados nas suas certezas graníticas, analistas derramam por jornais e blogues o seu imenso desdém pela página histórica que acaba de se virar no Cairo.»

 

Contra os saudosistas. «Extraordinário: assume-se a defesa póstuma da ditadura para lançar um vigoroso anátema sobre a democracia que ainda nem começou a ser construída. Como se o mundo árabe sofresse de um atavismo genético que o torna incapaz de conviver ad seculum seculorum com estados de direito e o respeito escrupuloso dos direitos humanos.»

 

Contra as ditaduras. «Todas as ditaduras são más. A de Cuba, a da Coreia do Norte, a do Zimbábue, a do Irão - e a que acaba de ser derrubada no Egipto. Se amanhã a ditadura iraniana caísse, seria um motivo de alegria e de congratulação para todos os democratas. Como o é hoje a queda da ditadura egípcia. Não podemos ser democratas até metade da bacia do Mediterrâneo e 'compreender' a ditadura na outra metade.

 

Contra a demagogia. «Extraordinário Mubarak, tão amigo do Ocidente em geral e tão digno da admiração de Alberto Gonçalves em particular. E extraordinários "estudos de opinião" - não especificados pelo crédulo sociólogo - que "parecem" conjugar liberdade e lapidação no Egipto.

Não conheço nenhum outro pensador mundial capaz de associar um movimento pró-democracia à excisão feminina.»


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