Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013
por José Meireles Graça

Quando o muro ruiu e se pôde ver, quem já o sabia, quem o adivinhava e quem o negava, que do lado de lá havia acomodados, resignados e descrentes, no cenário decrépito do cemitério de muitas ilusões, houve quem julgasse que, enfim, talvez não se tivesse chegado ao fim da história, mas por certo ao fim daquela história. Puro engano: não foi só o velho Cunhal, inteligente e fanático, que viu no desenrolar das coisas a ingenuidade, senão a traição, de apparatchicks chegados ao Poder por acaso, e a longa mão do imperialismo; muitos outros viram a mesma coisa. E disseram para consigo que o socialismo tinha decerto sofrido um revés, mas que com uns retoques na prática política, outra gente, e a experiência dos falhanços, o sonho estava tão vívido como sempre desde há quase cem anos.

 

Num certo sentido, não se enganou Cunhal: a capacidade das pessoas para acreditarem no Céu na Terra não tem limites; e a força de uma ideia que promete distribuir a paz, o progresso, a segurança, a igualdade para todos, só se esvai quando, chegada a ruína, e passado um tempo de desnorte, trocam uma miragem por outra ou pelo conforto de ideias velhas.

 

A miragem dos nossos dias, nesta parte do Mundo, é a União Europeia, e o seu símbolo o Euro: paz eterna, liderança mundial do crescimento, igualdade dos países, os pequenos com o mesmo voto, e a mesma voz, dos grandes, solidariedade entre ricos e pobres... lembram-se? Lembram-se, claro, a retórica é a mesma, e os apparatchicks de Bruxelas, com o seu regime fiscal de excepção, as mordomias que não têm nos países de origem, as suas intrigas palacianas, a distância e independência da opinião pública, trombeteiam o mantra da "construção da Europa" todos os dias, até ao enjoo. E outro tanto fazem quase todos os que, porque nisso acreditaram, apostando as reputações e as carreiras, não podem, como Cunhal não pôde, negarem-se.

 

De vez em quando, um sobressalto: as eleições em Itália disseram, à superfície, que os Italianos não sabem o que querem, mas sabem que não querem a austeridade; e disseram mais profundamente, a meu ver, que sobretudo não engolem um gauleiter europeu, mesmo que italiano, para executar uma política que de alemã e bruxelense tem tudo porque quer salvar uma moeda estrangeira, e de italiana nada.

 

Não é que eles, como nós, tarde ou cedo, tenham muito escolha - mas ir pelo caminho dos espinhos porque tem que ser e não há outro remédio, é uma coisa; e ir por aí porque uns malditos diabos estrangeiros determinam e mandam publicar, é outra.

 

E ainda que eles e nós estejamos ainda sob o império da ilusão colectiva de uma geração, e seja talvez necessário um projecto alternativo no qual as pessoas possam depositar as suas esperanças e, talvez, as suas ilusões, as eleições italianas disseram, como já tinham dito os referendos que se fizeram para convalidar as engenharias de pátrias, que por aqui não vamos lá.

 

"Eles" não vão lá. 


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