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Forte Apache

O princípio dos vasos não comunicantes

José Meireles Graça, 11.04.12

Eram cinco rapazes e uma rapariga. À mesa não se falava alto e, a menos que num contexto de conversa que o Pai autorizasse, não se falava de todo.

 

A comida era racionada implicitamente, em particular os bifes, que apareciam com uma frequência muito inferior à que os vorazes apetites exigiam.

 

Um dia foi deixado em depósito um primo rico. Vinha de Angola em férias e os pais ausentaram-se por uns tempos, confiando o garoto aos cuidados da parentela.

 

A Tia fartou-se de fazer recomendações: tinha muito fastio, o menino, era terrível para comer - olha que há uma criada que tem muito jeitinho e ela consegue, conta-lhe histórias, já vês.

 

A Mãe via. Da primeira vez, deparando-se com a cara fechada e entupida de choro do pimpolho, foi dizendo que era preciso comer tudo, havia meninos pobrezinhos a morrer de fome...

 

E a choradeira que vinha a caminho foi sufocada no ovo, com um olhar gélido do Pai, no meio do silêncio desaprovador dos comensais.

 

O primo não ficou excessivamente impressionado com o argumento dos meninos pobrezinhos, não saberia com nitidez o que era fome, e menos ainda morte - não comeu.

 

E pouco comeu na refeição seguinte, embora no intervalo não houvesse nada: o conceito de comer fora de horas esbarrava na inexistência do que fosse, pelo que era razoavelmente desconhecido.

 

No dia seguinte, o jovenzinho, aleluia!, alimentou-se; e na próxima despachou-se porque quem fosse lerdo corria o risco de ficar a ver os melhores bocados em navios.

 

O intelectual meditativo da família (literato de merda, alguém haveria de o rotular, com propriedade, anos depois), porém, ficou com a memória do argumento dos pobrezinhos a morrer de fome.

 

E só muito mais tarde percebeu que o argumento deixava a desejar: as sobras nunca poderiam impedir meninos de morrer de fome lá longe porque não haveria maneira de as fazer chegar, e os pobrezinhos ficavam na mesma quer comesse quer não comesse.

 

Hã, e a historieta vem a propósito de quê? Ora, a propósito disto; e como se liga tudo deixo para o leitor astuto, que eu agora não tenho vagar de explicar.