Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
por Luís Naves

É difícil fazer um balanço de 2011, de tal forma o ano foi complexo. Os últimos tempos, medidos em semanas ou escassos meses, têm sido de notícias deprimentes. Vivemos numa espécie de era da incerteza. O que julgávamos estável (família, emprego, igreja, estado) parece ter entrado numa crise sem paralelo na nossa memória. Os media encarregam-se de descrever um cenário catastrófico da realidade e parece haver uma competição entre analistas sobre quem consegue pintar a situação mais a negro.
Neste país, onde não há uma cultura da coligação e do compromisso, as mudanças foram quase sempre revolucionárias. Nos últimos cem anos, este é o terceiro governo reformista, o segundo em democracia. Olhando para a resistência e hostilidade às suas iniciativas, para a violência e cinismo de certos comentários, quase dá para acreditar que reformar o país não é apenas difícil, mas quase impossível. Trata-se de uma visão superficial: o facto é que a revolução não é uma possibilidade, ao contrário do que aconteceu no passado, pelo que nos resta a via muito estreita da reforma.

 

Não é cómodo dependermos do capricho de banqueiros e de investidores sem nome, a operar algures no chamado mercado, essa entidade abstracta. O capitalismo está a criar um modelo económico que ignora as pessoas. Já nem é preciso produzir objectos. Hoje, as empresas são activos financeiros e os funcionários passaram a custos. O emprego deixou de ter valor, as relações entre patrões e trabalhadores evoluem na hostilidade crescente. A insatisfação é generalizada. As pessoas deixaram de saber a razão do seu trabalho e esforço. Os trabalhadores são “colaboradores”, portanto, dispensáveis. O mundo financeiro cegou e julgo que este modelo não é viável.
 


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Sábado, 24 de Dezembro de 2011
por Luís Naves

Que é feito da Sildávia e da Bordúria, perguntarão os leitores, que costumam estar tão interessados em assuntos internacionais.
Recapitulemos: a Sildávia, reino centro-europeu de onde foi enviado o primeiro voo tripulado à Lua, é hoje uma próspera república e futuro membro da União Europeia. O rei Ottokar IV foi deposto num golpe militar que (diz-se) teve influência bordúria, mas a democracia regressou depressa, o que permitiu negociações frutuosas com Bruxelas e um rápido processo de adesão comunitária. A Sildávia é uma democracia parlamentar com taxas de crescimento económico a rondar os 6%. O seu rendimento per capita ultrapassou recentemente o português. Klow, a capital, tem meio milhão de habitantes e forte sector turístico, baseado na rica gastronomia. Tem atraído deslocalizações industriais do Vale do Ave.
Durante anos de isolamento, a Bordúria viveu um largo período da ditadura de Plekszy-Gladz e só recentemente alcançou a democracia, na chamada revolução azul-da-prússia. A sua selecção nacional quase conseguiu o apuramento para o mundial de futebol, tendo sido eliminada no play-off pela equipa sul-americana de San Theodoros.
Ao contrário do que se temia, Sildávia e Bordúria nunca chegaram a entrar em guerra uma com a outra.
Bem, isto é o pouco que sei sobre o assunto. Será que os leitores têm mais informações?

 

Este texto foi publicado em 2006 num blogue de que fui fundador, Corta-Fitas.
O post está extremamente desactualizado. Como sabem, logo a seguir à sua adesão à UE, a Sildávia foi forçada a pedir um empréstimo ao FMI, devido às dívidas contraídas com o programa espacial, e aplica neste momento um duro pacote de austeridade, após ter sido nomeado um governo de tecnocratas. Todos os dias há manifestações em Klow, a capital, e as agências de rating classificam a dívida sildava com notação de bb-.
A Bordúria teve recentemente eleições e regressou ao poder o partido do velho ditador Plekszy-Gladz, que controlou todo o processo de privatizações e cujos aliados se apoderaram das melhores empresas. A corrupção é generalizada e o país duplicou a sua despesa com armamento, para renovar as fardas dos três ramos das forças armadas (o concurso foi ganho pela empresa Armani). O jornal independente (Independensky) foi encerrado.

 


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Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011
por Luís Naves

A Coreia do Norte é certamente o país mais estranho do mundo e uma cruel ditadura comunista, mas também um regime dinástico, ultra-militarizado, com tecnologia nuclear, onde as populações estão isoladas do exterior, como se vivessem em Marte. O desaparecimento do segundo ditador da dinastia, Kim Jong-il, e a sua mais que provável substituição pelo filho, Kim Jong-un, anuncia tempos perigosos. Entretanto, já existe um título para o novo líder, “O Grande Sucessor” (os monarcas não têm apenas o nome, mas sobretudo o título, à maneira chinesa).
A imagem em cima é da minha autoria e foi obtida num momento de sorte, quando visitei a Coreia do Norte em 1989. O grupo que se vê a fazer a vénia era de coreanos emigrados no Japão. Na realidade, limitei-me a enquadrar e esperei pelo momento certo, que durou alguns segundos. A fotografia ficou ligeiramente sobreexposta no céu, o que é pena, mas podemos apreciar a dimensão da estátua do fundador do regime, o primeiro Kim, o “Grande Líder” Kim Il-sung. Um jornalista que conheci na altura e que estava baseado no Japão disse-me que estes emigrantes se dividem entre sul e norte exactamente na proporção da população de origem: em cada quatro, três mantêm a lealdade ao sul, um ao norte. Era assim em 1989, ainda o primeiro Kim vivia.

 


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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011
por Luís Naves

Entre os que fazem opinião no país está a surgir uma narrativa monocórdica com três ideias principais:

A Senhora Merkel enlouqueceu e recusa-se de forma irresponsável a ver a única solução para salvar o euro, ou seja, permitir a mutualização da dívida e deixar o BCE intervir em força, comprando dívida pública dos países. Merkel é uma má europeia (loira burra) e não devia conduzir o processo.

O eixo franco-alemão impos à Itália e à Grécia governos tecnocráticos, não democráticos, que vão aplicar medidas desnecessárias e que apenas beneficiam os mercados financeiros desregulados, os quais apostam na ruína dos povos europeus.

O Governo português não é legítimo e, pelo contrário, a legitimidade está nos protestos de rua, os quais se tornarão violentos dentro de muito pouco tempo.

Estes são os três mitos que tenho ouvido a muitos comentadores e parecem um disco riscado. Nada têm a ver com a realidade, mas entraram de tal forma na linguagem quotidiana, que serão difíceis de contradizer. Penso que são mitos perigosos, na medida em que nos transportam para um universo de ilusão que nada contribui para suavizar a crise.

 

Tudo tem mais a ver com vizinhanças e condomínios. A crise do euro não deve ser explicada pela irracionalidade alemã, mas sim pela insistência da Alemanha numa estratégia que levará pelo menos dois anos a concluir. Do ponto de vista dos alemães, o problema pode ser descrito da seguinte forma: alguns dos inquilinos não pagaram o condomínio e estão a prejudicar os habitantes do prédio, pois não há dinheiro para realizar obras urgentes. É justo que a Alemanha ponha o dinheiro para as obras urgentes? Os partidos alemães acham que não é justo e não querem pagar a factura que devia pertencer aos outros. Assim, exigem primeiro garantias de que todos os inquilinos vão pagar as respectivas quotas do condomínio, incluindo as atrasadas. Só depois se pensará na resolução das obras urgentes. Do ponto de vista deles, os que habitualmente não pagam insistem agora que cabe aos alemães (que sempre pagaram as quotas) a responsabilidade da factura das obras urgentes. E estes inquilinos em falta estão de tal forma endividados, que querem ver perdoadas as dívidas atrasadas. Os alemães acham tudo isto muito injusto.

Os países credores não vão aceitar facilitismos: a Alemanha considera que não há solução credível sem que isso conste dos Tratados. Se o Conselho Europeu decidir mutualizar a dívida, por exemplo, emitindo eurobonds, o Tribunal Constitucional alemão poderá desafiar essa decisão e inviabilizá-la. Isto não é credível para os mercados e não funcionará. E os países endividados vão ter de pagar as suas dívidas. Boa ou má, esta é a verdadeira posição da chanceler Angela Merkel.

 

O segundo mito é tipicamente português. A Itália teve vários governos tecnocráticos (aliás, muito bem sucedidos) e a solução não é inédita na tradição da democracia italiana. O governo de Mario Monti depende do apoio do parlamento (as leis têm de passar ali) e começou a trabalhar com apoio de todos os partidos, excepto da Liga Norte. Monti tem 80% de popularidade e 90% dos votos no parlamento. A sua escolha foi negociada pelos partidos e obedeceu a todos os preceitos constitucionais. Em Itália não se elegem primeiros-ministros (uma interpretação portuguesa que não se pratica em muitos outros países).

Quanto à Grécia, a única esquisitice foi o facto de se ter criado um governo tecnocrático para três meses, mas estes não só não pagam o condomínio, mas quase rebentaram com o prédio. Também já ouvi dizer que a Europa rejeitou a solução muito democrática do referendo proposto por Papandreou, mas isto não resiste a cinco segundo de análise: só Papandreou queria o tal referendo, que era rejeitado pelos partidos, incluindo o seu próprio partido.

 

O último ponto tem a ver com a legitimidade da rua versus legitimidade do Governo eleito há seis meses. O argumento é obviamente absurdo e defendido pelas mesmas pessoas que questionam o processo democrático italiano (queda de um governo que não tinha maioria).

Todas as pessoas têm pleno direito de protestar de forma cívica e de participar em greves, faz parte da liberdade, mas os comentadores falam de situações que não existem, por exemplo, o prolongamento das greves (não ouvi as centrais sindicais a mencionarem isso, mas parece um facto inevitável) ou a violência dos indignados com as medidas governamentais, quando não houve nenhum incidente minimamente agressivo.

Os comentadores comentam situações que não ocorreram, argumentando que podiam ter ocorrido, dizendo que terão forçosamente de ocorrer.

 

Já aqui o escrevi e penso que serve para interpretar a realidade. Este governo está a mexer com muitos interesses corporativos, da alta finança aos poderes sindicais, das profissões protegidas aos influentes grupos que se sentam à mesa do orçamento. A parte das reformas estruturais é a mais difícil e há quem procure condicionar a actuação do Governo, limitando os efeitos dessas reformas sobre os seus interesses particulares.

A nível europeu, o que se passa é um pouco diferente. Estão a ser criadas novas instituições que vão tirar a liberdade orçamental aos Estados da zona euro. Esta encontra-se dividida em três partes, o céu, o purgatório e o inferno. No primeiro grupo, estão os países com rating triplo A; no segundo, as economias sob pressão dos mercados; no terceiro grupo, os resgatados, incluindo Portugal. A zona monetária a três velocidades é insustentável.

Para passarem do inferno para o purgatório e do purgatório para o céu, os países terão de penar muitos anos, talvez mais de dois. De qualquer forma, o calendário político é exigente: eleições em França em Abril e Maio de 2012, na Itália em Abril de 2013, na Alemanha só em Outubro de 2013. Até lá, haverá a negociação dos Tratados, com substituição do provisório Fundo Europeu de Estabilização Financeira por um Fundo Monetário Europeu com amplos poderes de intervenção no purgatório (talvez o inferno entretanto desapareça). Além disso, criação do lugar do responsável das finanças da UE, com poderes de fiscalização orçamental (e, portanto, capacidade para dizer não a parlamentos). Só então haverá eurobonds. O Parlamento Europeu é capaz de perder poderes e o Presidente do Conselho até pode ser eleito.

Então talvez o condomínio possa funcionar.


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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011
por Luís Naves

Estamos numa fase de comentários catastrofistas sobre a Europa, que segundo muitos observadores acabará já ao virar da esquina, mas julgo ser tempo de tentarmos reflectir de forma um pouco mais cuidadosa.
A actual crise tem aspectos preocupantes, pode levar ao colapso do projecto, caso se mantenha mais dois ou três anos, mas julgo sobretudo que estamos numa fase de transição. As mudanças são difíceis de aceitar e vamos assistir a esta transformação a partir de um assento desconfortável, com escasso controlo sobre o futuro. Daí que tudo nos pareça desproporcionadamente perigoso.

 

No entanto, os países ricos da Europa jamais aceitarão o fim da sua actual prosperidade. Como tentei explicar em post anterior, não há nenhum declínio na Europa, pelo menos nos últimos 50 anos, e a integração europeia está intimamente ligada ao sucesso destes países, que possuem riqueza, segurança e sistemas políticos estáveis. Tudo isto continuará.


 


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Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
por Luís Naves

Decadência
Muitos autores afirmam que a Europa está em decadência. Referem a desindustrialização e o desemprego, o crescimento magro e o envelhecimento, a falta de influência militar e a irrelevância política.
É possível defender a tese, mas o facto é que um processo de decadência tem de ser visto em comparação com períodos anteriores e, sendo assim, é difícil perceber os sinais de queda. A Europa continua a conceber e fabricar produtos sofisticados, domina os mercados financeiros e produz a melhor arte contemporânea. Tem um mercado único de 500 milhões de consumidores e constitui uma zona de prosperidade em alargamento. Os países europeus possuem nível educacional elevado e podem manter essa vantagem. A população goza de grandes liberdades e as sociedades são democráticas, ultra-liberais.
Comparando com 1945, quando a Europa estava devastada e dividida em duas partes, a tese da decadência é difícil de aceitar. Comparando com os anos 60, em que os países europeus viviam sob a ameaça comunista ou sob domínio directo da URSS, a ideia continua a ser difícil de compreender. Comparando com 1989, quando a Europa se reunificava, a tese da decadência torna-se quase inaceitável.
Em média, os europeus são mais ricos do que os seus pais e do que os seus avós. Vivem em sociedades seguras, com níveis de violência inferiores, por exemplo, aos americanos. Os impérios europeus desapareceram e a Europa não voltará a exercer o poder relativo que teve no final do século XIX, mas as visões de impotência, fraqueza congénita ou afundamento inelutável parecem francamente exageradas.

 


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Terça-feira, 27 de Setembro de 2011
por Luís Naves

2
Este texto serve para uma espécie de louvor dos escritores invisíveis, sem os quais não haveria acumulação de ideias nem a tradição onde germinam os que ascendem à fama. Mas falemos também dos pintores invisíveis.
Sempre tive o fascínio pelas imagens e, a certa altura da minha vida, tomei mais atenção ao gosto pela pintura. Ainda não tínhamos mobília em casa, e um dia passámos (eu e a minha mulher) por um antiquário e ali vimos um quadro que, para ela, evocava uma certa nostalgia da sua terra. O antiquário viu dois pelintras interessados e aproximou-se.
O quadro mostrava uma paisagem de montanha, no inverno, 28 por 40 centímetros, com pinceladas apressadas mas precisas, cores belíssimas e técnica perfeita; certamente, era de um pintor estrangeiro, pois a obra tinha sido comprada fora do país; o antiquário admitia que fosse francês, anos 20 ou 30 do século passado, mas podia ser centro-europeu. “Também gosto muito e tenho um quadro do mesmo autor”, explicou o antiquário, “procurei por todo o lado, mas não consegui identificar a assinatura”. Como era um pintor desconhecido, fez-nos um preço acessível, e adiámos a compra da mobília. Durante algum tempo, as visitas sentaram-se em cadeiras de cozinha e ali, na parede branca, brilhava uma aldeia de montanha, nuvens de tempestade, um friso de neve, os ramos grotescos de uma árvore em primeiro plano.
Não tem qualquer valor comercial, mas nunca me cansei de o olhar. E ao fundo, lá está, o rabisco de quem o pintou. Quem seria?


 


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Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011
por Luís Naves

1

O suplemento literário do El Pais, Babelia, publicava na semana passada um extenso artigo sobre “escritores que mereciam ter mais leitores” e concluía, sem demonstração, que havia acasos a tornarem alguns autores obscuros e ignorados pelo público, enquanto outros brilhavam no firmamento da literatura espanhola. Fiquei meio desiludido: uma boa ideia de jornal com uma concretização algo fraca e sem novidades. Mas, enfim, se o acaso explica a ausência da fama, por que razão há tão poucos famosos em qualquer literatura? Só um em cem consegue chegar ao público e os restantes permanecem no anonimato.
Admito a validade da tese do acaso. Uns, pouquíssimos, têm sorte. Como teve António Muñoz Molina, que escreve uma coluna no Babelia e que, na mesma semana, algumas páginas à frente, conta o início da sua carreira. Podia ter sido apenas mais um escritor falhado, mas estar no momento certo à hora certa e ter amigos generosos permitiu-lhe sair do anonimato. Curiosamente, no seu site oficial, Molina tem uma interessante epígrafe, a desencantada frase do poeta António Machado, que numa má tradução (minha) diz mais ou menos assim: “na política, como na arte, as novidades apedrejam as obras originais”. Concordando com a tese de que não há nenhuma razão para alguém ter êxito, de que não existe uma fórmula mágica para conseguir conquistar leitores, Molina conclui, num texto magnífico, que cada autor deve seguir o seu instinto e escrever o que acha ter valor para os leitores, sem se preocupar com mais nada.

 

(Amanhã, segunda parte deste texto)


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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011
por Luís Naves

2
Um dia, veremos talvez a repetição da era dourada de Hollywood, mas isso não é para já. O cinema evoluiu, perdeu as histórias, tornou-se elaborado; e os truques, hoje, mais parecem magia. Deve ser mesmo feitiço, pois todos caem nas garras do seu sortilégio. Os filmes são agora visualmente espectaculares, com imagens que nos deixam boquiabertos, mas tudo aquilo é indústria. Perdeu-se parte da poesia. A generalização é talvez um pouco errada: estou a esquecer os irmãos Cohen, o grande Eastwood, Tim Burton, entre outros. Mas temos de recuar aos anos 80 para encontrarmos um filme americano realmente inesquecível, Blade Runner, o último clássico, ou alguns anos depois Imperdoável. E havia muito para dizer sobre este fascínio pela técnica que vemos não apenas no cinema, mas também na literatura e em todos os outros aspectos da cultura contemporânea. Sem fogo de artifício, nada nos interessa, não é mediático e não existe. 
Isto é talvez o que define a nossa era pós-89, o novo século que pisamos sem sabermos se ele será de colapso ou incógnita. No passado, os produtos eram fabricados para durar 50 anos. E duravam. Agora, um automóvel sobrevive cinco anos sem manutenção dispendiosa. Embora já não haja verdadeiras novidades, estamos rodeados de produtos novos. Há sempre qualquer coisa imprescindível que, quando olhamos melhor, não passa de uma variação do que já existia. A última grande vaga de inovações foi nos anos 80; depois, só houve actualizações e o respectivo marketing. Dou um exemplo extremo: os estrategas americanos fizeram umas contas e dizem que, em breve, haverá uma geração de aviões tão complexa que todo o dinheiro do Pentágono só chegará para fabricar um exemplar do novo modelo.
A civilização tornou-nos mais ricos e infelizes. Não há tempo para nada, nem sequer para pensar. Levamos os telefones connosco, para que possam interromper os nossos pensamentos, e ficamos ansiosos se ninguém nos manda um e-mail (isso é bicho). O diletante flâneur em digressão pelas eternidades, que concebia os seus versos a passear pelos bosques, é agora uma figura extinta: sufoca pateticamente a fazer jogging matinal, atrelado ao MP-4.
É isso, estamos a perder qualquer coisa no caminho, o sentido da dimensão do humano. Há como que uma estupidificação da inteligência. A complexidade está a tornar-nos mais estúpidos.

 

 


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Domingo, 11 de Setembro de 2011
por Luís Naves

1
O cinema clássico americano é um milagre que os filmes contemporâneos tentam em vão imitar. Naquele período de grande explosão de criatividade, entre o início dos anos 30 e o final dos anos 50, foram inventados muitos dos aspectos técnicos e estéticos que hoje consideramos normais num filme. O cinema incorporou ideias da literatura da época, pois era um meio acessível, que chegava a milhões de pessoas, satisfazendo de forma eficaz a necessidade humana de aprender com a experiência alheia, concentrada e ficcionada, dando como num livro a ilusão de se habitar outra vida.
Neste período, foi central um género tipicamente americano, o western, que concentrou algumas das ideias mais criativas do tempo áureo de Hollywood. Aquele era um espaço onde podia ser encenada a quase infinita diversidade do destino humano. A tragédia, a crueldade, o heroísmo. Como correspondia a um território inexplorado, o oeste selvagem permitiu sobretudo sublinhar a ideia da liberdade, isto num século onde as lutas pela liberdade foram simplesmente terríveis.
Em múltiplos desdobramentos, inúmeras variações, Ulisses é a personagem preferida dos westerns, o homem invulgar que regressa a casa depois de muitas aventuras. Quase tão frequentes como as histórias dos heróis misteriosos e justiceiros, os grandes clássicos tiveram uma predilecção especial por homens comuns a enfrentarem injustiças incomuns. Também se interessaram pelas veredas incertas da honra, a loucura do desejo, a solidão dos justos. Mas há de tudo um pouco: ciúmes, paixões, delatores, mulheres fatais, aventureiros sem destino, índios irredutíveis, a busca inútil da glória, a beleza da paisagem e a brutalidade dos homens. Errância e perdição.

 


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