Tiago Miranda (Expresso)
Em parte é verdade, em parte é mentira. A parte de verdade é esta: estamos endividados para cobrir os défices de funcionamento e as rentabilidades negativas de tantos projectos, por exemplo de construção civil, que serviram única e exclusivamente para injectar dinheiro nas empresas amigalhaças do poder político, nomeadamente a Mota-Engil. É possível que formalmente não haja ilegalidade nenhuma. Mas utilizar os trâmites legais para privilegiar interesses privados expoliando os contribuintes é, substantivamente, um roubo. Roubalheira, ladroagem: são palavras do povo, desagradáveis, deselegantes. Mas são as palavras que com maior propriedade podem classificar, por exemplo, os negócios entre os socialistas do partido e os socialistas da construção civil.
A parte de mentira é esta: estamos endividados porque a economia portuguesa nunca produziu o suficiente para financiar o nosso welfare state, nomeadamente os salários e as pensões da função pública, em particular dos que foram contratados antes de 1993. A dívida de hoje, neste caso, é o preço que as gerações actuais têm de pagar pelos salários e as pensões já pagos no passado a um conjunto de portugueses que se tornou classe média graças e, muitas vezes, por favor do Estado. A menos que se considere a função pública uma classe dominante e os seus rendimentos um roubo, aquela frase não é verdadeira.
Tiago Miranda (Expresso)
O Estado somos todos nós ("cada cidadão um político") também é só meia-verdade: somos quase todos nós quando o que está em causa é pagar impostos; é uma minoria (demasiado grande porém) quando o que está em causa é mesmo fazer parte do Estado, isto é, trabalhar para o Estado tendo um contrato vitalício, pensão de cem por cento ou próximo disso, acesso à ADSE e outras regalias.
A dívida de hoje é pois o resultado de dois factores: um, puro nepotismo e captura do dinheiro do Estado para servir interesses privados, interesses que são depois defendidos com recurso às narrativas/mentiras da modernização e do Portugal é o único país que ainda não tem isto nem faz aquilo...; dois, a expansão desmesurada de um welfare state sem ter em conta o fraco crescimento económico e, até, o efeito negativo que essa expansão teve/tem no próprio crescimento, um welfare state perverso que consiste em tributar o todo para garantir o bem-estar de um número excessivo de funcionários públicos e subsidiodependentes, número este que quanto mais aumenta mais rapidamente conduz o próprio sistema à falência.
P.S.: Ao ver as fotos nos dois linques do Expresso, a impressão que tenho é que os "indignados" não chegaram sequer a um milhar.