Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
por Rui C Pinto

A direita blogosférica que tem produzido milhares de caracteres contra a adopção por casais homossexuais alegando, tout court, o superior interesse da criança é, para meu espanto, a mesmíssima direita que rasga as vestes perante o anúncio de proibição de fumo em veículos que as transportem. 

 

Aguarda-se, a todo o momento, que voltem a si e aos seus fortes e inabaláveis ideais na defesa do superior interesse da criança. Ou será que a dita direita também partilha do terrível ímpeto socialista de opressão estatizante e de castração das liberdades individuais? Pois... 


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Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011
por Luís Naves

Falar em televisão é difícil, sobretudo quando estão muitos convidados e sabemos à partida que devemos dizer em trinta segundos algo de significativo. Assim, tenho desculpa para o desastre de ontem, na participação num programa sobre literatura.
Quis dizer que os livros maus também são necessários. Trata-se de um tema pouco discutido em tertúlias, encontros de escritores, festivais de literatura ou programas de cultura. A tendência é para se desvalorizar o mau e endeusar o bom, embora só o tempo distinga uma coisa da outra.

A literatura tem uma ecologia semelhante à da floresta. Para as árvores atingirem dimensão e porte, é preciso que haja muitas espécies de plantas mais pequenas, muitos arbustos e fetos e musgos e bactérias. As árvores antigas e que se destacam das restantes têm de crescer em busca do sol e, quanto maior for a cobertura vegetal, mais intensa será essa busca, o que privilegia a sua altura e opulência. Uma literatura só com génios não seria saudável porque era pobre, com árvores que não precisavam de crescer muito para terem todo o sol só para elas. Cada uma julgando-se enorme e brilhante, apesar de provincianamente pequena.
Isto levou-me a dizer que é preciso compreender os livros maus, porque são necessários para a exuberância da vida e aprendemos muito com eles. O tempo é cruel e quase todos os autores escrevem para o esquecimento, sem nunca saírem da sombra. Mas sem o que vive na sombra não existe a extraordinária fuga para o sol, essa superação que faz algo enorme daquilo que nasceu pequeno. Foi isto que tentei dizer, sem conseguir.


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Terça-feira, 13 de Setembro de 2011
por Luís Naves

Transeuntes

 

O que fica da vida vai ficando
é encolher os ombros e ir andando.

O polícia suspira, não há nada para ver
circulem, circulem, vamos a mexer
e a multidão passa, deita a vista
olha com a curiosidade do turista.

 

O passeio compacto, é preciso paciência
e não esquecer os deveres da obediência
Barulho frenético, a enorme agitação
todos calados, em vaga onda de emoção
e o agente continua a ladainha
vamos a andar, que a rua está cheiinha.

 

Circulem, vamos, que a cidade não pára
nem para ver um atropelado sem cara

Acidente de tráfego à hora de ponta
mas continuar na vida é o que conta


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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011
por Luís Naves

Na sua ausência, era insultado na taberna. Os bêbados chamavam-lhe todos os nomes, mas o que mais lhe doía era a acusação de alcoólico: bebe como uma esponja, diziam os bêbados; e faziam essa acusação sobretudo quando já tinham bebido em excesso; eles, que apenas sabiam beber até perderem toda a lucidez, viam no seu inimigo a própria imagem reflectida e sentiam uma ânsia súbita de destruir aquele objecto de ódio.
Por vezes, a vítima perguntava-se, que lhes fiz eu?
Era um mistério, sobretudo aquele insulto grave, de ser alcoólico. Espalhara-se pela vila, como uma nuvem de veneno. É alcoólico, o dissimulado. E se alguém lembrava o facto simples de nunca ninguém o ter visto a beber, de nunca ninguém o ter visto na taberna, logo uma beata dizia que isso era ser falso, que só bebia em casa, às escondidas, o que era pior.
A inversão da lógica não os perturbava. Davam mais ouvidos à calúnia do que à verdade, se é que existem verdades.
O facto é que ele não bebia uma gota. Sei de boa fonte, pois o homem morreu de desgosto e eu fui amante da viúva, que mo contou sem ter razão para me mentir. Julgo que era por isso que na taberna o caluniavam. Para os bêbados, era insuportável a simples existência de alguém que tinha toda a liberdade para não beber.


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Terça-feira, 6 de Setembro de 2011
por Luís Naves

Ao ler uma História da China, de John Keay, deparei com a personagem do imperador Hongwu, ou Zhu Yuanzhang, que governou durante 30 anos, no século XIV. Zhu era um camponês e tomou o poder após uma revolta e a guerra civil que levou à queda da dinastia Yuan, consequência do caos que se seguiu à peste negra. O fundador da dinastia Ming é hoje visto pelos historiadores como um unificador que impôs a ordem no país. Todos os dias condenava pessoas à morte, mas o pormenor que mais me interessou foi o conceito de “execução até ao quinto grau”. Um dos métodos de matar os condenados era esquartejamento lento, mas este quinto grau não dizia respeito ao requinte na forma, mas sim à extensão da colheita. O ministro em causa chamava-se Hu Weiyong e os documentos sobreviventes dizem que teria sido demasiado poderoso, corrupto ou incompetente, não se sabe ao certo. Em 1380, este ministro foi condenado ao quinto grau, o que implicou a morte de 30 mil a 40 mil dos seus familiares, até ao quinto grau de parentesco. Segundo se conta, um confuciano escandalizado com estas prepotências apresentou-se perante o imperador e criticou-o. Vinha acompanhado do próprio caixão e, após terminar a sua crítica, deitou-se dentro dele. Impressionado com a coragem deste homem, o imperador, por uma vez, exerceu a clemência.


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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011
por Luís Naves

Passeio breve. Muitos trabalhadores vieram de férias e o trânsito estava outra vez caótico. Em três locais diferentes, pessoas discutiam. Uma rapariga gorda gritava para um velho, talvez com razão; sandália chã, como se usa agora, a blusa sem chegar à calça, mostrando um pneu de banha a nível da cintura. Um velho e uma velha sentados num dos novos bancos de jardim gritavam um com o outro: “Deixe-me falar”, explodiu ele, a certo ponto; não percebi o tema da discussão; quando reparei neles, aquilo continuava: iam ao fundo da rua, ele atrás dela; chegaram a um prédio e entraram.
Sol manso, ar de cristal, ocorreu-me isto:

 

Observo o esplendor do dia
Que passa em morna monotonia
Dois velhos discutem
Ela exige que a escutem
E diz ele, deixa-me falar
Não há meio daquilo acabar
Se houvesse só gente amável
O mundo seria mais suportável
Mas talvez fosse muito banal
Sempre a sorrir, sempre igual


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