Segunda-feira, 13 de Agosto de 2012
por Luís Naves

Alexandre Homem Cristo escreve em Cachimbo de Magritte este texto sobre a crise da Imprensa, sem perceber que está a abordar um problema do próprio regime democrático. Algumas das premissas parecem-me erradas, comprometendo o acerto da conclusão. Aliás, o próprio título é um cruel tiro ao lado: "Mudaram os tempos, não mudaram os jornais". Os tempos mudaram, sem dúvida, mas o autor não imagina como mudaram os jornais também.

 

O autor de Cachimbo afirma que "nunca houve tanta gente informada" e tem confiança inabalável na informação que circula na internet, uma "oferta informativa gratuita". Como nunca houve tantos alfabetizados, Alexandre Homem Cristo chega a esta lapalissada: "A queda das vendas na imprensa indica que as pessoas cada vez menos se informam através dela". 

O problema da tese está na primeira afirmação. Na realidade, a oferta informativa gratuita é muito inferior à disponibilizada quando o consumidor paga e, portanto, nunca houve tanta gente tão desinformada [falo obviamente dos tempos mais recentes de liberdade de imprensa].

O mito de que os portugueses andam mais informados lendo menos jornais é na realidade um prego colocado bem no coração da liberdade de Imprensa e está a servir para a condenação à morte das publicações que restam. Para quê ler coisas que são mal investigadas e feitas de forma incompetente por jornalistas nacionais estúpidos, se posso ler o Times Literary Supplement*? No momento em que "o leitor se tornou mais exigente, a imprensa não exige mais de si", escreve Homem Cristo, falando de noticiário que "não informa, limita-se a relatar".

 

Infelizmente, o autor passa ao lado do problema central, que é económico. Nos últimos anos assistiu-se a uma concentração dos meios de comunicação em grandes grupos que se endividaram. Foram reduzidos custos e o mais importante destes é o salarial. Por outro lado, houve um aumento absurdo no número de pessoas em cursos de comunicação, sem oferta de emprego compatível. Seguiu-se brutal redução de salários, com despedimentos que afastaram jornalistas mais experientes. Ao longo dos últimos dez anos, as redacções começaram a fazer jornais em papel e na internet, com menos pessoas, todas cada vez mais baratas. Obviamente, reduziu-se o tempo da execução do trabalho. Os jornais, que sofrem a concorrência do dumping publicitário das televisões, foram especialmente atingidos por estes fenómenos.

As redacções são hoje muito jovens, mal pagas e pequenas. Os jornais tentam ser grandes, para não perderem ainda mais leitores, o que agrava o problema da redução da qualidade.

 

Estas pescadinhas-de-rabo-na-boca são muito óbvias para quem trabalha no sector, totalmente desconhecidas pelos amadores que proliferam nos blogues e que acham que estão a "informar" os portugueses. A internet é uma forma de difusão informativa, seria imbecil afirmar o contrário, mas exige os maiores cuidados. Confronto-me todos os dias com exemplos de notícias erradas ou mal contadas ou que omitem elementos decisivos. Há casos clássicos, bem estudados, que demonstram um efeito perverso da propagação fácil de falsas informações através da internet. Estas histórias mal contadas, que vão sendo reduzidas a caricaturas, acabam por se transformar em mitos entranhados. Os rumores e boatos que contaminavam dez mil pessoas numa propagação tradicional, hoje pela internet chegam facilmente a um milhão de infectados.

 

É inútil discutir a crise da imprensa sem mencionar o custo. Se o autor não está disposto a pagar pela informação, então não terá informação, pois esta tem um custo associado. Incapaz de se sustentar com as receitas da publicidade (reduzidas pela crise económica e pela perda de leitores que resulta da sua menor qualidade) a Imprensa está a morrer em Portugal e isso, a meu ver, não é um bem, mas um enorme perigo para a democracia. Os cidadãos terão acesso, não a mais, mas a menos informação. E uma pessoa desinformada é vulnerável à manipulação e à mentira.

Pensem um pouco na degradação da política nas últimas décadas. Este fenómeno global está claramente ligado a uma sociedade menos informada, mais susceptível a simplificações e que simplesmente se recusa a pagar por informação, preferindo o nevoeiro. Um dia, isto estará fora do controlo, com pânicos criados artificialmente, marcianos imaginários à solta.

 

 

* O acesso a publicações estrangeiras é um benefício, mas tem dois problemas: em primeiro lugar, é para ricos, pois nem toda a gente tem internet ou sabe ler inglês. Além disso, faz com que os intelectuais discutam temas estrangeiros com a familiaridade de um nativo. Nos blogues, com poucas excepções, são amplamente referidos escritores da segunda divisão de outros países e que nem sequer se publicam em português, ao mesmo tempo que se ignoram os autores nacionais.  


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Segunda-feira, 12 de Março de 2012
por Rodrigo Saraiva

Mário Crespo foi dispensado pelo Expresso, na prática por ter criticado opções editoriais e discordado do próprio jornal onde escrevia, onde fazia opinião. Aguarda-se a todo o momento que a turba de defensores de Pedro Rosa Mendes faça o mesmo por Mário Crespo.


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Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
por Pedro M Froufe

Passos Coelho defendeu a ideia de que o Estado, mais do que prestador directo de serviços (no fundo, "Estado-fornecedor"), deve assumir-se como um "Estado-garantia". Esta ideia-chave é fundamental, no âmbito das discussões mais ou menos académicas, mais ou menos políticas-operativas, sobre o Estado/respectivas funções e natureza. Ademais, é conciliável com a tradição europeia de "Estado-Providência" (melhor, poderá ser a única forma viável de, agora, garantir-se a respectiva subsistência). Pese embora, no que respeita aos exemplos/sectores escolhidos para ilustação desta ideia (Saúde e Educação), dificilmente e segundo o que se depreende das palavras do próprio Primeiro-Ministro, o Estado poderá deixar de ser fornecedor. Diríamos, com uma especial garantia de qualidade do respectivo fornecimento.

 

Esta ideia é fundamental e é aquela que poderá ter mais implicações estruturais/ser um contributo mais decisivo para um novo paradigma (... lá vem o velho e gasto, nos dias que correm, chavão!) de Estado.

 

Aposto, contudo, que aquilo que vai chamar mais a atenção dos jornais e suscitar mais manchetes será a questão da redução do número de deputados! Como já se vê, aqui, pelo título desta peça ("Passos Coelho quer menos deputados...")

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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
por João Gomes de Almeida

 

Já aqui tinha sugerido a oferta de uma assinatura da revista LER no Natal. No entanto, seria injusto não aconselhar também a oferta de uma assinatura da revista "Os meus livros", que alimenta este excelente blogue sobre literatura, actualizado diariamente. Com um preço de capa bastante mais barato do que a LER, presumo que também terá um preço de assinatura atraente.

 

Actualmente, a OML é dirigida pelo João Morales e conta com artigos de opinião, entrevistas e reportagens sobre o que de bom se faz em Portugal no sector editorial. Paralelamente, vem sempre com a OML Júnior, suplemento infantil e inovador na área. Bom para dar e receber.


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