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Forte Apache

Yo También

Francisca Prieto, 08.09.11

 

Em Setembro de 2009 uma grande amiga minha ligada às lides cinematográficas foi convidada para fazer parte do júri do Festival de Cinema de San Sebastián. Coube-lhe a ela entregar em mãos o prémio de melhor actor a Pablo Piñeda, o jovem espanhol protagonista de Yo También, famoso por ter sido, na Europa, o primeiro portador de Síndrome de Down a conseguir completar uma licenciatura.

 

Na altura vi o trailler mas não fiquei particularmente impressionada. Sabe-se lá porquê, fiquei com a ideia de que se tratava de mais um filme poético sobre um trissómico sonhador.

 

O filme não chegou a estrear por terras lusas, de maneira que se perdeu pelas brumas da memória até ao mês passado quando o meu marido, chegado do estrangeiro, gritou “alvíssaras” de DVD em punho.

 

Foi com um certo fastio que me sentei diante do televisor e foi com muita resistência que ultrapassei as imagens iniciais de uma aula de dança para adultos com Síndrome de Down. Sou profundamente defensora da inclusão de portadores de SD e fico de cabelos em pé quando assisto à cena típica do “adulto colectivo”, à excursão de mongolóides que caminha desengonçada a dizer disparates, acompanhada por adultos paternalistas que sorriem condescendentemente.

 

Para minha surpresa, o filme é o contrário do que estava à espera. Ao invés de um trissómico sonhador, damos de caras com um jovem lucidíssimo, com um sentido de humor fenomenal. Não fora ter tão vincados os traços físicos característicos da síndrome, aliados a uma dicção deficitária, e acharíamos tratar-se apenas de um actor baixinho.

 

O papel é o de um trissómico a fazer de pessoa normal. Ou melhor, de um trissómico que, por ser tão normal, vive num limbo desconcertante.

No fundo, precisamente o inverso do que Dustin Hoffman desempenhou em Rain Man, com direito a Óscar da Academia.

 

Contou-me a minha amiga que, enquanto jurada, teve de defender por mais de uma vez que premiar Pablo Piñeda não se tratava de um lugar comum. Não era o óbvio prémio “ao desgraçadinho”, era o reconhecimento do excepcional trabalho de um actor.

 

Yo También é um filme de excelência, que toca de uma forma desconcertantemente pragmática nas questões da integração social. Mas, Yo También, é sobretudo, um filme delicioso.