Yo También
Em Setembro de 2009 uma grande amiga minha ligada às lides cinematográficas foi convidada para fazer parte do júri do Festival de Cinema de San Sebastián. Coube-lhe a ela entregar em mãos o prémio de melhor actor a Pablo Piñeda, o jovem espanhol protagonista de Yo También, famoso por ter sido, na Europa, o primeiro portador de Síndrome de Down a conseguir completar uma licenciatura.
Na altura vi o trailler mas não fiquei particularmente impressionada. Sabe-se lá porquê, fiquei com a ideia de que se tratava de mais um filme poético sobre um trissómico sonhador.
O filme não chegou a estrear por terras lusas, de maneira que se perdeu pelas brumas da memória até ao mês passado quando o meu marido, chegado do estrangeiro, gritou “alvíssaras” de DVD em punho.
Foi com um certo fastio que me sentei diante do televisor e foi com muita resistência que ultrapassei as imagens iniciais de uma aula de dança para adultos com Síndrome de Down. Sou profundamente defensora da inclusão de portadores de SD e fico de cabelos em pé quando assisto à cena típica do “adulto colectivo”, à excursão de mongolóides que caminha desengonçada a dizer disparates, acompanhada por adultos paternalistas que sorriem condescendentemente.
Para minha surpresa, o filme é o contrário do que estava à espera. Ao invés de um trissómico sonhador, damos de caras com um jovem lucidíssimo, com um sentido de humor fenomenal. Não fora ter tão vincados os traços físicos característicos da síndrome, aliados a uma dicção deficitária, e acharíamos tratar-se apenas de um actor baixinho.
O papel é o de um trissómico a fazer de pessoa normal. Ou melhor, de um trissómico que, por ser tão normal, vive num limbo desconcertante.
No fundo, precisamente o inverso do que Dustin Hoffman desempenhou em Rain Man, com direito a Óscar da Academia.
Contou-me a minha amiga que, enquanto jurada, teve de defender por mais de uma vez que premiar Pablo Piñeda não se tratava de um lugar comum. Não era o óbvio prémio “ao desgraçadinho”, era o reconhecimento do excepcional trabalho de um actor.
Yo También é um filme de excelência, que toca de uma forma desconcertantemente pragmática nas questões da integração social. Mas, Yo También, é sobretudo, um filme delicioso.
