Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Forte Apache

o Hino

José Meireles Graça, 04.03.13

A Grândola foi porventura a única coisa verdadeiramente consensual na Manif. Porque os descontentes que lá estiveram, irmanados no que rejeitam, não se entendem no que querem.

 

Os desempregados querem emprego, mas se perguntados sobre como criá-lo ou se refugiam na receita do PS, que já provou só ser possível com endividamento; ou na do PCP ou do BE, que conduz a uma Cuba com mau tempo, que só os comunistas, ingénuos e desesperados desejam; ou se queixam amargamente dos ladrões da Troika, cujo perdão de dívida libertaria, acreditam, os meios para investir.

 

Os reformados não aceitam que o Estado tenha quebrado o contrato sinalagmático que tinha com eles, acreditando que se tivesse antes quebrado os contratos com capitalistas que financiaram o delírio das obras públicas não precisaria de chegar a estes extremos.

 

Os jovens queixam-se de que foram vigarizados, tendo suado as estopinhas para obter um diploma que agora nem podem pôr na parede, por falta de recursos para comprar a moldura.

 

E todos se queixam da Merkel, do Passos Coelho, do Relvas, dos partidos, do BPN, da banca, dos plutocratas e da "direita". E os que não vivem da caridade pública e privada, de familiares e instituições, gemem sob o peso de impostos irracionais ao ponto de o que sobra da punção fiscal nem sequer permitir a vida como antes, quanto mais o aforramento.

 

Ninguém faz contas. A meu ver, muito bem, que se pomos um capataz a tomar conta da quinta é para que ele se ocupe da gestão e da intendência. E como a quinta está falida e ninguém percebe como se regressará aos dias toleráveis, procura-se desesperadamente, no meio de um grande berreiro, um novo capataz.

 

O novo capataz acabará por vir, porque vem sempre.

 

Atrás desta manifestação outra surgirá. Os descontentes sentir-se-ão, por um momento, menos descontentes: partilhar as nossa dores e dissolvermo-nos em algo maior do que nós é um conforto. A Situação experimentará algum alívio: vá lá que é só cantorias, ainda não incendeiam automóveis nem partem montras. A oposição comunista e afiliada esfregará as mãos: épá, as contradições do sistema capitalista estão-se a aprofundar, a Revolução está na ordem do dia; e a oposição socialista sonhará com o regresso a um módico de tachos, logo que as contas estejam minimamente equilibradas e desde que a "Europa", para salvar o Euro, continue a fazer transfusões, mas reforçadas e a preço de saldo.

 

Eu, é claro, não fui à Manif. Em cada rosto igualdade? Deus me livre - eu é mais em cada rosto diferença. Hinos nos quais caibam as diferenças todas só me lembro de um, o Nacional, e esse brilha pela ausência.

 

O que não quer dizer que, quando todas as quimeras se esvaziarem, não seja o único que restará no fundo do poço das nossas ilusões. 

Sobre a "legitimidade" dos governos após manifestações

Alexandre Poço, 03.03.13

“Quem determina a acção governativa são os portugueses quando escolhem o governo. É bom que não nos esqueçamos disso.”

 

"As pessoas têm o direito de se manifestar. Mas era o que faltava se a acção governativa dependesse agora do nível das manifestações."

 

José Sócrates, 9 de Março de 2008

 

Nota: este post é dedicado a todos aqueles que apoiaram (e apoiam) os governos de Sócrates, mas que ontem rasgaram as vestes e foram para a rua clamar que o actual governo perdeu a "legitimidade" para governar, restando-lhe apenas a "legalidade". Um bem-hajam a todos vós!

Perceber os sinais III

Fernando Moreira de Sá, 03.03.13

Ontem Portugal gritou.

 

Desta vez não foi um silêncio ensurdecedor.

Ontem, no Porto, em Braga, em Vila Real, em Coimbra, em Faro, Portimão, Castelo Branco, Évora, Lisboa e outras mais, os portugueses e as portuguesas desceram ruas e juntaram-se nas suas praças.

Para muitos comentadores e outros tantos desconhecedores da realidade em que Portugal e os portugueses mergulharam, foi uma manifestação contra a troika, o Governo e o Presidente da República.  Não foi tão redutor.

 

Os portugueses foram para a rua pelo desespero em que estão mergulhados. Vidas interrompidas. Os mais velhos por se verem espoliados de parte substancial da sua reforma a que tinham e continuam a ter direito. Os mais jovens por se terem apercebido de que não passou de uma miragem a oportunidade que lhes foi vendida pelo canudo obtido. A geração da minha irmã pela angústia de não saberem que futuro dar aos filhos e como sustentar o dia a dia. As crianças pelo desespero que sentem nos olhares dos seus progenitores. Os pequenos e médios empresários por estarem em pânico perante o esbulho fiscal que lhes retira qualquer esperança de recuperação. A minha geração por não saber, na realidade, se fica ou parte.

 

Todos estes portugueses, a esmagadora maioria dos portugueses, olha para a realidade quotidiana e ficam mudos de espanto: o ministro das finanças, na sua frieza imperturbável, não acerta numa previsão, num número que seja. Várias vozes o avisaram, publicamente, que quanto mais se sobe os impostos, mais diminuiu a receita. Nada. O resultado está à vista.  O completo desastre.

Gaspar faz-me recordar aqueles professores universitários, apelidados de génios deste mundo e do outro que, quando numa sala de aulas, falam para os alunos do alto da sua soberba e os estudantes, atónitos, não percebem palavra do que o homem diz. Metade desiste e a outra metade faz um enorme esforço. No final, a taxa de reprovação é esmagadora e a culpa, obviamente, não é do génio. São os alunos que não se esforçaram por aprender. O problema é que Portugal não é uma cadeira de uma qualquer licenciatura nem os portugueses uma mera turma de universitários.

 

Ao princípio pensei que o problema do Governo era a comunicação. Hoje, sinceramente e sem meias palavras, percebo o erro. A questão é outra. Temos um Governo, legitimamente eleito pela maioria dos portugueses que expressaram a sua vontade votando no PSD e no CDS, completamente refém de um ministro das finanças e sua “tropa de elite técnica” desfasados da realidade. Não conhecem o país, não conhecem os portugueses e do pouco que não ignoram, detestam profundamente. No fundo, no fundo, nós metemos-lhes asco. Para eles, somos nós que estamos mal, que estamos errados, que somos umas nulidades.

 

A maioria dos portugueses acreditou em Pedro Passos Coelho. Na suas ideias, na sua forma de estar e na esperança que transmitia. Foi nele que os portugueses votaram. Não foi em nenhum Gaspar. Foi nele que depositámos o nosso futuro. A esmagadora maioria dos portugueses sabia, perfeitamente, quem foram os culpados da situação em que Portugal se encontrava em 2010 e disso deram a devida nota nessas eleições. Os portugueses sabiam, que ninguém se iluda, que a situação que Pedro Passos Coelho iria encontrar seria bem pior do que aquilo que nos fora contado. Sabiam, não façam dos portugueses nem burros nem tolos. Até podem aparentar, fruto de cedo terem aprendido que, em relação a certas espécies, é conveniente alguma dose de manha. A Pedro Passos Coelho só se pedia seriedade e competência. Não era pouco. Era o necessário para salvar os dedos.

 

Por isso mesmo, a maioria dos portugueses que ontem foi para a rua, fizeram-no como um aviso. Um último aviso. A quem? À troika? Não, essa é menor nesta equação. Ao Governo? Não, esse não conta para este campeonato. Ao Presidente da República? Não, esse, para mal de todos nós, deixou de existir no dia em que se lamentou da sua reforma. Não, a maioria dos portugueses foi para a rua dar um último aviso a quem pode, ainda, resolver: Pedro Passos Coelho.

 

Os portugueses, a maioria, não quer eleições. Não acredita que Seguro seja solução e teme soluções radicais. Estamos mal, muito mal mas, felizmente, ainda estamos vivos.

 

Desta vez, foram pacificamente para a rua por ainda lhes restar um mínimo de esperança. A esperança de que Pedro Passos Coelho assuma que é ele o Primeiro-ministro de Portugal, que é ele que comanda a Nação e é dele a responsabilidade primeira. A ele cabe escolher ministros políticos para fazer política e técnicos competentes para auxiliar os políticos a executar as medidas necessárias para recuperar a economia e, com ela, a criação de postos de trabalho, de riqueza. Só dessa forma se pagam dívidas. E só dessa forma, quem nos emprestou volta a ter esperança de receber. O pior para os credores é o incumprimentos ou os perdões de dívida...

 

Caso contrário está tudo perdido. O Governo irá cair, Portugal mergulhará numa das piores crises políticas e económicas da sua história. Os portugueses não iriam perdoar nem ao PSD nem ao CDS e o castigo nas urnas, já em outubro, seria exemplar. Será o princípio do fim. Sem perdão.

 

 

 

Digam o que disserem

Sérgio Azevedo, 18.09.12

Mas tenho para mim que, em termos abstractos, uma das melhores coisas que a Manifestação de passado dia 15 teve foi termos ficado a conhecer a Adriana Xavier. A Adriana tem 18 anos e é de Lagos e no meio de petardos contra a "sede" do FMI abraçou um polícia. O gesto, naturalmente, correu o mundo graças à perspicácia do Fotojornalista da Reuters José Manuel Ribeiro.

O abraço de Adriana lembra-nos aquelas imagens de variadíssimos filmes que nos trazem, como será normal, uma perspectiva diferente de quem legitimamente defende os seus direitos. Mas mais do que isso, lembra-nos os anos do idealismo hippie onde tudo seria naturalmente resolvido pela paz e pelo amor.

Adriana é uma hippie. Eu gosto de hippies. Aliás, tenho para mim que uma sociedade não será absolutamente saudável nem completa sem uma boa dose de hippies. Sem uma boa dose da paz e de amor. Nas acções, nas manifestações em sentido lato, nas orientações. A Adriana fez-nos acreditar que há, de facto, muito mais para além da Troika, dos sacrifícios e das necessárias dificuldades que teremos de passar a uma escala mais ou menos global.

"Aquela imagem é a que sou. Acredito que em breve vai haver uma mudança. Espiritual." diz a Adriana. Eu gosto da Adriana. E gostava que muitos mais cidadãos, de manifestantes a políticos, de empresários a trabalhadores, de juízes a réus fossem um bocadinho como ela. Só um bocadinho.

A Bela e o Monstro

José Meireles Graça, 18.09.12

Não é possível não gostar de Adriana, que "não acredita em partidos, nem no dinheiro -  o dinheiro só gera maus sentimentos, só gera ódios". E o impulsivo abraço dela, com sorte e quando a poeira assentar, ficará como imagem de marca da manifestação do dia 15: temos sempre espaço para a ingenuidade, a juventude, os impulsos e o improviso feliz.

 

Infelizmente, era de dinheiro que se tratava: o que foi e não devia ter sido gasto e por quem, o que foi e não devia ter sido emprestado, quem paga, quem recebe, como se paga, se é que se paga ... dinheiro, só dinheiro.

 

E partidos, só partidos: pode-se criar um partido - o do interesse nacional, por exemplo - para acabar com os partidos, mas há grupos de pessoas com ideias diferentes sobre o que seja o interesse nacional e essas pessoas, se se organizarem, fazem ... partidos.

 

A realidade é uma detestável maçada. E pode às vezes ser grotesca: por exemplo, na manifestação podia ter participado este senhor. E não o fez porquê? Mas não se está mesmo a ver? Por decoro, diz o próprio.

 

Diz bem. Porque estando nós em estado de zanga permanente uns com os outros por causa do que se gastou e é preciso pagar, e sendo ele um dos tenores do "pr'á frente é que é o caminho", só poderia participar com a cara enfiada num tacho.

 

E isso, realmente, não teria muito decoro.