Quarta-feira, 19 de Setembro de 2012
por José Meireles Graça

 

(*) 

 

Portugal vai homenagear Manoel de Oliveira, embora, graças a Deus, se vá fazer a economia dos discursos - a perspectiva dos senhores deputados mais cinéfilos, ou do edil Costa, a elaborarem em torno do génio de Oliveira, é verdadeiramente aterradora.

 

A meu ver, Oliveira é que deveria homenagear o povo Português, que há décadas lhe financia os pastelões porque, igualmente há muito tempo, os pastelões são favoravelmente acolhidos, e premiados, lá fora.

 

Lá fora não levam a apreciação a pontos de encherem salas a pagar. Mas tem que haver uma explicação para a chuva de prémios, os elogios ditirâmbicos e o rótulo de génio.

 

Afastemos já a putativa genialidade: os cemitérios estão cheios de prémios Nobel da Literatura justamente esquecidos, ao mesmo tempo que lentamente vão passando à categoria de clássicos autores que em vida tiveram um moderado sucesso, e de prémios maiores, muitas vezes, nicles. O génio encontrou o Mundo assim e deixou-o assado pela influência que exerceu (ou o reconhecimento que ganhou), sobre o pensamento ou a Arte das gerações vindouras. Para sabermos isso temos que esperar a decantação do tempo, pelo que a opinião dos contemporâneos, críticos encartados embora, vale zero.

 

Fica o interesse: parte do cinema europeu contemporâneo possivelmente, e o nosso de certeza, é o cinema do subsídio - sem ele morre, ou diz-se que morrerá enquanto vai estando moribundo. E para adiar indefinidamente este funeral requerem-se figuras de proa que façam o que cinema comercial não faz, em produções baratas e sob a égide de uns cavalheiros que insinuem umas coisas herméticas com mensagem.

 

Manoel de Oliveira chegou mais cedo porque é mais velho; em França os seus confrades estimam-no muito, que o Estado francês é um mãos-largas com estas coisas da cultura; e com a idade veio a respeitabilidade.

 

Também lá vou estar, na homenagem, mas em espírito: o espírito do meu IRS e do meu IVAzinho - que remédio.

 

_____________

 

(* Sete horas consecutivas de "cinema português")

 


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | gosto pois!

Quinta-feira, 6 de Setembro de 2012
por José Meireles Graça

Conheço algumas pessoas que dizem que gostam de Manuel de Oliveira; e muitas que não gostam. Por humilhante coincidência, as primeiras são da variedade intelectual e as segundas grunhos como eu. Mas nunca li uma referência de crítico encartado que não consistisse em pôr a obra nos cornos da Lua e em taxar o autor de "génio".

 

Há tempos, queixei-me timidamente por Manuel de Oliveira me vir periodicamente ao bolso para ter meios para expectorar mais duas horas de interminável tédio. Um impotente resmungo meu: paga e não bufes, os entendidos é que sabem.

 

Constatei hoje, com indisfarçável prazer, que ele há entendidos e entendidos.


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | gosto pois!


Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds