Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012
por Pedro Correia

Na passada sexta-feira, as manchetes de dois diários e um semanário que se publicam em Lisboa visavam dois cidadãos que estariam a ser investigados pela justiça devido a suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais. Os nomes desses cidadãos vinham estampados com todas as letras nessas manchetes, associadas às caras deles, não fosse algum leitor duvidar.

Um desses cidadãos, Henrique Medina Carreira, tem acesso instantâneo aos órgãos de informação, começando pelo canal televisivo onde é comentador regular, e pôde assim dar sem demora a sua versão dos factos, contrariando em toda a linha as notícias que terão resultado da estreita cumplicidade entre investigadores criminais e jornais.

Desmentiu tudo. Sabe-se agora que o seu nome terá sido usado apenas como código da verdadeira rede de fraude fiscal e branqueamento, numa tentativa de baralhar a investigação.

Mas Medina Carreira pode ir mais longe. Pode processar o estado português por danos irreparáveis ao seu bom nome e à sua honorabilidade pessoal. Devia até seguir este caminho por motivos de pedagogia social. Para evitar que outros, depois dele e com muito mais dificuldade de acesso aos órgãos de informação, caiam também nestas kafkianas malhas tecidas por certos agentes do Ministério Público que aparentemente se permitem ter cumplicidades demasiado estreitas com certos jornalistas: uns e outros ridicularizam o segredo de justiça, tornando-o letra morta, e perpretam assassínios de carácter. Que podem liquidar sem remissão os nomes de inocentes.

Diz Marcelo Rebelo de Sousa que a Procuradoria-Geral da República devia pedir desculpa a Medina Carreira. Eu acho que as desculpas devem ser pedidas aos portugueses no seu conjunto. Porque não é de hoje nem de ontem que estas práticas sucedem, para vergonha das instituições judiciais.

Sim, este país assusta. E um certo jornalismo leviano também.


tiro de Pedro Correia
tiro único | comentar | ver comentários (4) | gosto pois!

Sábado, 8 de Dezembro de 2012
por Carlos Faria

Não é à pessoa honesta que convém um cidadão considerado respeitado cair na malha da suspeita de ilegalidades. É o corrompido, o corruptor ou o interessado em desrespeitar a lei que se sente justificado com isso.

Estranhei a euforia mostrada por muitos com a hipótese de Medina Carreira ter sido suspeito e investigado num caso de lavagem de dinheiro e fuga ao fisco… até pareciam interessados em que ele mesmo tivesse as mão sujas.

Uma coisa também importa insistir: um mentiroso pode não ser o veículo mais convincente para dizer uma verdade, mas esta não vira a mentira devido ao defeito do mensageiro; tal como as realidades que Medina Carreira tem dito, que incomodam muita gente, deixam de ser verdades, independentemente de por fugas de informação se terem agora levantado algumas suspeitas sobre a pessoa.


tiro de Carlos Faria
tiro único | comentar | ver comentários (2) | gosto pois!

Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012
por José Meireles Graça

Ninguém está acima de suspeitas; ninguém está acima da Lei; e todos somos iguais perante ela.

 

Mas a Lei, quando, para se realizar, implica comprimir direitos de cidadãos, vale o que valem os seus intérpretes e executores.

 

E estes têm entre nós uma folha de serviços desprezível: muito estardalhaço na praça pública (ó pra nós, que justiceiros que somos, os poderosos conosco não fazem farinha), muito arrastar pela lama até ao vómito, muito atropelo - vasculhar escritórios de advogados é um atropelo - e, de resultados, nicles. Não há culpados nem inocentes, os políticos, empresários, todos os que detêm algum imperium, todos os famosos, todos os ricos, todos os que têm alguma, ainda que pobre, magistratura de influência, correm o risco de ser apupados pela canalha como aldrabões e gatunos, e arrastarem atrás de si um cheiro a podre. Como me dizia um amigo, hoje: se lá foram a casa, alguma razão haviam de ter.

 

Não, não tenho um par de asas nas costas: o poder corrompe; quem pode abusar muitas vezes abusa. Mas a melhor garantia que os cidadãos anónimos podem ter contra os abusos do Estado e seus agentes é que quem seja conhecido ou importante não tenha por isso menos direitos. Porque se qualquer um pode, à discrição do Poder Judicial, ver a casa e o escritório invadidos porque há indícios de qualquer coisa, e esses indícios não têm solidez, como está abundantemente demonstrado que em geral não têm - então ninguém está a salvo. E como as coisas são o que são, se assim se tratam os de cima, como se tratarão os de baixo?

 

É possível que Medina Carreira não ache nada disto que eu acho. Pouco se me dá, não será apenas nisto que discordaria dele, por muita admiração que lhe dedique. E quanto à opinião pública, essa rameira velha, vai quase sempre para onde a leva a arreata dos meios de comunicação social. Ainda que tenha a volubilidade que as putas geralmente não têm: o vilão de hoje é o herói de ontem e o perdoado ou esquecido de amanhã.

 

A Justiça não tem hoje o prestígio de que já desfrutou, por boas e más razões. Não me parece que o ridículo lhe vá melhorar a imagem.


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | ver comentários (4) | gosto pois!

Domingo, 27 de Maio de 2012
por José Meireles Graça

Tinha três episódios atrasados do Olhos nos Olhos, e ontem vi-os de enfiada.


Medina Carreira começa a cansar: o mantra mil vezes repetido da origem de todos os males na classe política; de a referida classe ter criado um sistema que exclui perversamente os melhores; e que por isso os maus tomaram as decisões erradas que tomaram porque os que poderiam ter tomado outras simplesmente foram excluídos - não resiste a um mínimo de análise.


Entendamo-nos: Medina tem razão, e teve-a antes de qualquer outro, na denúncia veemente do despesismo público suportado no endividamento, da educação de pacotilha, dos investimentos públicos lunáticos, das PPPs blindadas e de todo o imenso rosário de escolhas políticas desastrosas que encontraram em Sócrates e no seu consulado uma espécie de resumo e paroxismo.


Sucede porém que aquilo que é para Medina, e para mim e muitos, evidente, nunca o foi nem é para todos. Tomemos Sócrates para exemplo: vejo-o como um excepcional tribuno da plebe, crente na virtude salvífica do Estado para investir, criar riqueza, liderar o desenvolvimento, modificar a natureza e as circunstâncias da nossa sociedade e da nossa economia, tudo embrulhado em doses consideráveis de demagogia, patente desonestidade intelectual (e, provavelmente, desonestidade tout court) e assinalável ignorância, o conjunto servido por uma grande capacidade de trabalho e vontade férrea. Pois, apesar de Sócrates ser assim como o descrevo,


Pode alguém sustentar que não ganhou limpamente eleições, e que não teria tido sucesso qualquer que fosse o arranjo do nosso sistema eleitoral, e por muita exposição pública que tivessem os Medinas desta vida?


Ou não será mais razoável supôr que o nosso eleitorado está formatado pela I Republica, pelo Salazarismo, pelo PREC, pelos socialistas, por Cavaco, na ideia de que o bem-estar e o progresso ou vêm do Estado ou não vêm?


Depois, o flagrante contraste entre as promessas e a realidade, e o choque do protectorado imposto pelos credores anestesiados pelo Euro, que acordaram tarde para a realidade do inevitável calote, fizeram desmoronar a credibilidade do delírio socrático.


Mas nem esse desmoronar foi completo nem há falta de saudosistas. Os socialistas estão aí, ferinhos, a recomendar doses mais moderadas da mesma receita de sempre, crentes irredimíveis em que, em havendo alguém que empreste ou pague, a crise pode ser vencida.


Ao primeiro alívio, à primeira cedência, mesmo que a troco da alienação da insignificância que resta de independência, os socialistas aí estariam, frescos como uma alface, como se não houvesse ontem.


Estariam. Porque as coisas foram longe de mais, na UE do Euro em que a nossa élite, incluindo Medina Carreira, nos meteu. E só não me atrevo a prever o futuro porque ele vai acontecer de uma maneira, enquanto há muitas de o imaginar.


Mais do mesmo? Não me parece, com o sistema eleitoral que temos ou qualquer outro.


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | ver comentários (4) | gosto pois!


Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds