Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011
por João Gomes de Almeida

 

Já aqui tinha dito que o Miguel Esteves Cardoso em 1987 tinha razão sobre o que dizia da Europa - ontem ele próprio o veio afirmar, na sua habitual coluna no Público. Também ontem, o Diogo Freitas do Amaral, na SIC, referiu-se ao PPM da altura de Ribeiro Telles como "o pequeno partido que tinha sempre razão sobre as coisas e que não tendo votos, mesmo assim, conseguia convencer os outros partidos". Na verdade, o PPM conseguiu ser pioneiro de todas as verdades consensuais que hoje existem na política portuguesa relativamente à ecologia, à organização das cidades e à importância da agricultura. Ficou a razão, muita, e o proveito, pouco.

 

Na sessão de homenagem a Ribeiro Telles, em que Freitas do Amaral proferiu estas palavras, outro dos oradores foi Miguel Sousa Tavares. A determinada altura, prendeu-me a atenção com uma frase: "todos estamos a agradecer ao Gonçalo, mas todos nós, portugueses, devemos-lhe é um pedido de desculpas". A tónica manteve-se, Ribeiro Telles, e por consequência o seu PPM, tiveram quase sempre razão antes do tempo.

 

Nota-se agora que não foi só nas questões ambientais que o PPM teve razão. Realmente, quando o MEC foi candidato ao Parlamento Europeu, por duas vezes, também a visão de uma Europa que nos ia levar ao fim quase total da nossa soberania se revelou como um certeiro presságio. Hoje aqui estamos, com os olhos postos num eixo Franco-Alemão que nos garante quase tudo, menos a nossa existência enquanto estado, país e cultura independente.

 

Este livro, que aconselho vivamente para o Natal, é um conjunto de crónicas do MEC no "O Independente", as quais ele apelidou de "As minhas aventuras na república portuguesa". Aqui narram-se as duas candidaturas ao Parlamento Europeu e as duas respectivas derrotas tangenciais, fala-se também de amores, amizades, vícios e de uma unidade europeia que era vista com desconfiança. Merece ser lido e relido.

 

Hoje, como há umas décadas, faz-nos falta um "PPM" com aquela craveira intelectual e aquele pensamento à frente do seu tempo - certamente que daria um excelente contributo a esta AD que nos governa, na minha opinião bem, pelo menos dentro do possível nesta conjectura.


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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011
por João Gomes de Almeida



Em 1987, quando me candidatei, com o PPM, ao Parlamento Europeu, perdemos. Por pouco. Resta-nos a ácida praga de termos previsto, tal como a maioria da população portuguesa, que iríamos perder a nossa independência nacional, política e económica. E que isto – não surpreendentemente – não seria bom.
Dobrámos a nossa dependência de sempre, em troca de um federalismo de meia-tigela, em que os países ricos e poderosos da União Europeia passaram a mandar nos mais pobres e fracos, emprestando-lhes dinheiro a juros bons, sem ter qualquer responsabilidade por eles.
Percebe-o o turista português que vai a Paris, Londres ou Roma. Ganha metade, nos mesmos euros, do que ganham os colegas franceses, britânicos ou italianos. Mas lá, para mais, é tudo duas ou três vezes mais caro. Portugal, que é caro para nós, é mais barato para eles, não por termos a mesma moeda, mas porque eles ganham mais do que nós e cobram-nos mais do que nós cobramos.
O euro é bom para quem exporta. Portugal exporta pouco. A Alemanha exporta muito. Os BMW e Mercedes são mais baratos para nós do que eram antes. Mas continuamos a ter de trabalhar muito mais para pagá-los.
Os países ricos da UE querem emprestar-nos dinheiro para podermos pagar-lhes o que lhes devemos. Recuperando o dracma, o punt, o escudo, a peseta e a lira, nada nos impede de considerá-los, oficialmente (como faziam os antigos países de Leste), equivalentes a um euro.
Vira-se o feitiço contra o feiticeiro.

 

Miguel Esteves Cardoso, no Público de hoje.


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