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Forte Apache

«Ele merece, sem dúvida»

Pedro Correia, 28.04.12

 

A meio da tarde, enquanto aguardava duas horas, numa imensa fila de pessoas que se estendia do Campo Pequeno à Avenida Defensores de Chaves, dobrando duas esquinas sucessivas, escutei um homem que por ali passou dizer a outro: «Ele merece, sem dúvida.» Sabia a razão daquela fila interminável: durante cerca de cinco horas, milhares de pessoas deslocaram-se hoje ao Palácio Galveias para prestar uma sentida e expressiva homenagem ao eurodeputado Miguel Portas, que morreu terça-feira em Antuérpia a poucos dias de completar 54 anos.

Escutei por acaso aquela frase, que me pareceu uma excelente legenda para esta romagem de apreço por um homem que soube cativar figuras dos mais diversos quadrantes ideológicos. Por isso não me admirei de ver por lá gente tão diversa como Mário Soares, Maria Barroso, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, Pedro Passos Coelho, Assunção Cristas, António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa, Manuel Carvalho da Silva, Pedro Santana Lopes, Teresa Villaverde, Pina Moura, Almeida Santos, Luís Fazenda, Ruben de Carvalho, Manuel Graça Dias, Bagão Félix, Maria João Avillez, João Cravinho, António-Pedro Vasconcelos, Rui Vilar, Ricardo Costa, Pezarat Correia, António Vitorino d'Almeida, Inês de Medeiros, Mário Crespo, Pedro Choy, João Botelho, José Fonseca e Costa, Mário Tomé, Maria Antónia Palla, Vítor Dias, António Pires de Lima, Joana Amaral Dias, Ângelo Correia, Judite Sousa, Pedro Rolo Duarte, António Perez Metelo, Vasco Vieira de Almeida, José Sá Fernandes e José Ribeiro e Castro - entre tantas outras personalidades.

Enquanto abraçava os dirigentes do Bloco de Esquerda presentes junto à urna (Francisco Louçã, João Semedo, Fernando Rosas e José Manuel Pureza) e os familiares mais próximos de Miguel Portas, incluindo os irmãos Catarina e Paulo e a Mãe Helena, ia confirmando este raro condão do eurodeputado bloquista que perdurou para além do seu desaparecimento físico: ele era capaz de congregar a admiração sincera de muitos que não pensavam como ele. Por ser veemente na defesa dos seus ideais, transparecendo calor humano e convicção, sem nunca confundir claras divergências políticas com animosidades pessoais.

«Ele merece, sem dúvida.» Em dia de despedida, Miguel Portas podia ter muitos epitáfios. Este - espontâneo, genuíno e popular - foi um dos mais certeiros.

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Miguel Portas

José Meireles Graça, 25.04.12

Miguel Portas não deixou obra memorável: não recebeu, que eu saiba, prémios como economista, escritor, jornalista e co-autor, bem como apresentador, de séries documentais para televisão; e não foi uma figura da cultura pop, ou do jet-set, ou sequer do Poder.


E todavia a sua morte causou comoção. O pertencer à família a que pertence, e a morte prematura e as suas circunstâncias, não chegam para explicar o fenómeno.


Mas Portas tinha a imagem de ser um político de causas, e de estar disposto, por elas, não apenas a ter sido preso, adolescente ainda, mas também a abandonar uma agremiação da qual é difícil sair; a embarcar em empreendimentos generosos e de sucesso duvidoso; a defender com tranquilidade os seus pontos de vista, sem acrimónia e com respeito por opiniões diferentes, e até opostas, da sua; e em tudo pôr simpatia, desprendimento, generosidade e empenho.


Se as ideias que defendia para a coisa pública alguma vez se tornassem as dominantes, seria uma vítima do monstro que com as melhores intenções ajudara a criar; e concluiria decerto que as pessoas comuns não se regiam pelos seus padrões, ou, quem sabe, que a igualdade não pode ser obtida sem violência.


As pessoas sabem que não há muitas pessoas assim; e não precisam concordar com elas para lhes sentir a falta.