Quarta-feira, 17 de Abril de 2013
por Pedro Correia

 

«She redefined leadership.»

Editorial do Financial Times, 9 de Abril

 

Ao fazer o elogio fúnebre de Margaret Thatcher na Câmara dos Comuns, com uma elegância perante os adversários políticos em que os britânicos são exímios, o líder trabalhista Ed Miliband prestou-lhe o maior dos tributos ao declarar: «As ideias contam.»

De facto, em política as ideias contam. E Margaret Thatcher nunca as ocultou. Os eleitores que lhe deram três grandes vitórias eleitorais sabiam em quem votavam e as consequências do seu voto. Foi precursora da globalização ao advogar a liberdade dos mercados. Vitoriosa na Guerra Fria, contribuiu para a derrocada do "socialismo real". Influente na Europa, recusou com firmeza as políticas federalistas, incluindo a moeda única.

Sim, ela pôs as ideias em primeiro lugar. Ela pertencia a um tempo em que a política precedia tudo o resto na acção governativa, em que havia escolhas claras nas urnas - um tempo de esquerda e direita que se combatiam com frontalidade e lealdade, não a direita liofilizada e a esquerda descafeinada que surgiram depois, quase gémeas siamesas, cada qual copiando o projecto da outra ao ponto de quase se confundirem.

 

Thatcher, primeira mulher a ascender à chefia de um Executivo na Europa, ultrapassando em longevidade governativa todos os restantes primeiros-ministros britânicos no século XX, era inconfundível com qualquer dos adversários trabalhistas que defrontou nas urnas - James Callaghan em 1979, Michael Foot em 1983 e Neil Kinnock em 1987. Chegou ao poder em Maio de 1979, com 53 anos, dizendo claramente ao que vinha: devolver ao Reino Unido (a que ela chamava sempre Britain, com entoação orgulhosa) a prosperidade económica e o prestígio internacional entretanto perdidos, combater a influência soviética no mundo e reforçar a parceria atlântica com os Estados Unidos, evitando a sujeição do seu país ao federalismo europeu e àquilo a que designava desdenhosamente de "burocracia de Bruxelas".

 

Houve sombras no seu mandato, como sempre sucede em mandatos longos. Os adversários acusaram-na de insensibilidade social - e muitas vezes tinham razão. Foi incapaz de solucionar o bloqueio político na Irlanda do Norte - e ainda hoje causa perplexidade a forma impiedosa como deixou morrer na prisão alguns grevistas de fome que militavam no IRA, incluindo Bobby Sands. Não faltou, dentro das próprias fileiras conservadoras, quem a criticasse por ser arrogante - e nada podia estar mais certo.

Já aos dez anos, ao vencer um concurso de poesia na escola, a pequena Maggie revelava essa faceta da sua personalidade: ao entregar-lhe o prémio, a professora elogiou-a por ser uma miúda "com sorte". Réplica imediata da visada: "Eu não tive sorte. Eu mereci este prémio." Mais tarde, aos seus compatriotas, nunca se cansou de referir que nada se alcança sem esforço.

 

 

No essencial, Margaret Hilda Roberts Thatcher, cujo funeral decorreu esta manhã com honras de Estado em Londres, teve razão. Contra a esquerda sua contemporânea, que demasiadas vezes a contestou por razões erradas e viria a adoptar boa parte do seu legado.

Teve razão ao fazer recuar as fronteiras de um Estado ineficaz e tentacular, que mergulhara o Reino Unido num longo Inverno recessivo, abrindo espaço à iniciativa privada.

Teve razão ao recusar manter o aparelho estatal como motor da economia, pondo fim ao ciclo inflacionista que conduzira o país à ruína económica e transformando Londres num baluarte do sistema financeiro internacional.

Teve razão ao combater com tenacidade os velhos dinossauros comunistas na Europa de Leste enquanto encorajava a acção reformista de Gorbatchov em Moscovo, dizendo ao mundo que ele era um homem com quem se podia "trabalhar": sem a sua firmeza diplomática, talvez o Muro de Berlim não tivesse caído tão cedo.

Teve razão ao insurgir-se contra o centralismo de Bruxelas, ao recusar a diluição da libra esterlina no sistema monetário europeu e ao lançar repetidos alertas contra a Europa federal, em defesa do Estado-nação: o pesadelo em que se transformou a União Europeia dirigida por burocratas sem visão política acabou por validar as suas advertências.

Teve razão ainda ao defender com firmeza a soberania britânica nas Malvinas, correspondendo ao desejo quase unânime dos habitantes do arquipélago, e ao enfrentar a política de canhoneira do general Galtieri, na altura apoiada por muitas vozes "progressistas" na Europa em nome do anticolonialismo. A vitória militar britânica no Atlântico Sul permitiu que a Argentina se libertasse enfim daquela que foi provavelmente a mais repugnante de todas as ditaduras militares da América do Sul.

 

Raros políticos emprestaram o seu nome ao vocabulário comum. Aconteceu com Margaret Thatcher: o thatcherismo foi um vocábulo que entrou no dicionário. Definindo, no essencial, um conceito que alarga as fronteiras da liberdade: também aqui ela esteve no lado certo. "Não pode haver liberdade sem liberdade económica", declarou num dos seus discursos esta filha de um merceeiro de província que na infância morou numa casa sem WC interno nem água corrente.

"Ela transformou toda a economia britânica do lado da oferta", observou Patrick Minford, professor de Economia em Cardiff. Quando Thatcher deixou Downing Street em Novembro de 1990, empurrada pelos barões do seu partido e não pelos eleitores, o número de accionistas privados no país subira de 3 para 12 milhões e a inflação caíra de 22% para 4%. O crescimento anual médio do Reino Unido, nesses 11 anos, foi de 2,3% - o aumento real do PIB cifrou-se em 4% em 1986, 4,6% em 1987 e 5% em 1988. "Entre 1980 e 2000, registou-se o primeiro período em que o PIB per capita do Reino Unido cresceu mais do que em qualquer outra grande economia europeia desde o século XIX", sublinhava há dias Martin Wolf no Financial Times.

Escolhas políticas claras somadas ao sucesso económico: não admira que o prestigiado The Times tenha votado nela como a quinta melhor chefe do Governo britânico, entre 50, desde o século XVIII (logo atrás de Churchill, Lloyd George, Gladstone e William Pitt). Quando chegou ao poder, o Reino Unido vivia mergulhado na decadência social e na asfixia económica. Com ela, recuperou a sua voz autorizada e prestigiada na cena política internacional.

 

"Ela será sempre para nós, polacos, um ícone do mundo livre e da luta pela liberdade", disse o eurodeputado polaco Jacek Saryusz-Wolski em declarações difundidas pela Euronews neste dia em que o funeral da antiga Dama de Ferro decorreu na presença de representantes de 170 países e com 1200 jornalistas credenciados para esse efeito em Londres.

Um dos seus adversários políticos, o ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair (1997-2007), foi um dos primeiros a prestar-lhe homenagem com estas palavras divulgadas mal foi conhecida a morte da sua antecessora, a 8 de Abril: "Muito poucos líderes conseguem mudar não só o panorama político do seu país mas do próprio mundo. Margaret Thatcher foi um desses líderes. E algumas das mudanças que introduziu na Grã-Bretanha foram, pelo menos em certas áreas, mantidas pelo Governo trabalhista a partir de 1997 e adoptadas por governos de todo o mundo."

Não por acaso, quando certa vez perguntaram à mulher que derrubou Galtieri qual havia sido a maior marca do seu mandato, ela respondeu com humor tipicamente britânico: "Tony Blair."

As ideias contam, afinal.

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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011
por Luís Naves

Um responsável chinês, Jin Liqun, deu esta espantosa entrevista à Al Jazeera e julgo que está aqui um vislumbre do nosso mundo. Jin não é uma pessoa qualquer, mas chefia a companhia que gere os investimentos internacionais da China. Não representa o governo, mas será um dos membros mais poderosos da hierarquia comunista do país. 

Leia-se este interessante editorial sobre o mesmo tema.

Para os leitores que não tenham a paciência para ver todo o vídeo de 25 minutos, recomendo que ouçam a passagem a partir de 12.55 minutos, onde Jin se refere à rede social europeia como incentivadora da "preguiça", criticando as leis laborais na UE. Mas há outras frases interessantes. Questionado sobre que parte do Estado Providência tentará a China evitar, este responsável fala de "tudo o que possa desincentivar o trabalho". No final da entrevista, Jin reconhece que a "inovação ainda está nos países desenvolvidos" e admite que a China precisa de "maior aproximação" entre ricos e pobres, mas a certo ponto o entrevistador surpreende-se e diz ao entrevistado que ele parece um "capitalista extremo dos Estados Unidos". O responsável chinês fica um pouco embaraçado com o comentário.

 

O pretexto da entrevista é o plano europeu de resgate, que inclui a possibilidade de países emergentes com disponibilidades de capital investirem no Fundo Europeu de Estabilização Financeira. A resposta chinesa é prudente e parece apontar para a positiva. Jin Liqun diz que a China está interessada num euro forte, numa moeda de reserva internacional em paralelo com o dólar, mas também afirma que o facto de haver 17 parlamentos na zona euro não pode ser "desculpa para a inacção", fazendo em simultâneo a crítica ao modelo social europeu, que considera "injusto". Na sua opinião, os europeus trabalham pouco e muitos reformam-se aos 55 anos, passando o tempo na praia. E há contradições: por um lado, a referência ao facto da sua agência de investimento não querer saber de política, mas mais à frente a sugestão de que os europeus têm de mudar de vida.

 

De súbito, a Europa parece encontrar-se no lado errado da globalização, com os próprios comunistas chineses a defenderem o desmantelamento da rede social construída nos últimos 50 anos e que foi o orgulho de mais do que uma geração. Os chineses, naturalmente, não têm apoio na velhice e, aliás, vem aí a bomba-relógio do envelhecimento muito súbito da população, que vai ocorrer em apenas 20 anos, fruto de terem andado a fazer experiências demográficas radicais, com consequências que exigiriam muito mais tempo de adaptação.

A China é ainda um país onde há 600 milhões de camponeses pobres e 100 milhões de analfabetos. Trabalham muito, mas sem sindicatos nem direitos sociais, com horários de escravidão e condições de trabalho penosas. A economia cresce depressa, devido a investimento público maciço e à abertura dos mercados externos a produtos chineses em grande parte fabricados por empresas europeias. E é interessante verificar que abundam as histórias de roubo de patentes ou contrafacção de produtos. Os comunistas chineses, que não permitem qualquer tipo de abertura política, usam a seu favor o comércio internacional, beneficiando da competitividade inevitável da sua produção, a qual resulta das condições laborais degradantes a que o povo chinês é submetido.

A Europa, por seu lado, abdicou da indústria de trabalho intensivo e apostou em serviços ou naquelas indústrias que podem ser robotizadas. Em consequência disto, tem elevadas taxas de desemprego e, como aumentam os custos da manutenção da extensa rede social, a única forma de se manter competitiva é através da inovação, o próximo alvo dos chineses.

 

É isto o triunfo do comunismo ou do extremo liberalismo capitalista? Não me parece. Prefiro a explicação de Jin Liqun, quando fala da tendência de transferência de poder do Ocidente para o Oriente.

A China pensa em termos históricos e no seu próprio interesse nacional. Não esqueceu as humilhações europeias, mas precisa de uma Europa próspera, ou não haverá compradores para os seus produtos. Só exige uma pequena enormidade em troca: esqueçam o vosso estilo de vida, sejam mais chineses.  

 


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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
por Ricardo Vicente

Já tinha sido inapropriado que, depois da desgraça Strauss-Kahn, a direcção-executiva do Fundo Monetário Internacional voltasse a ser entregue a uma personalidade francesa, Christine Lagarde. A França já havia liderado aquela instituição por várias décadas e o seu último mandato acabara nas peripécias por todos conhecidas. Inapropriadas foram também as palavras de Sarkozy, celebrando aquela nomeação como uma "vitória para a França".

 

Após a sua candidatura ter recebido apoio da parte do Brasil, Rússia, Índia e China, Lagarde vem agora dizer que o fundo não precisa de ter os seus recursos aumentados, contradizendo assim a intenção de algumas economias emergentes (o poder relativo dentro do FMI depende do valor com que cada país contribui).

 

Sem qualquer fundamento que não a sobranceria da velha Europa e a arrogância francesa, a nova directora do FMI bloqueia assim uma redistribuição de poder cada vez mais merecida, sendo também verdade que, na actual crise europeia e considerando as dificuldades económicas nos EUA, tudo aponta para a necessidade de um acréscimo dos meios do FMI, como aliás a própria Lagarde já havia reconhecido.

 

Contradições de um mundo velho e em relativa decadência...


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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011
por Luís Naves

Alguns blogues decidiram desde Fevereiro que os países árabes não têm o direito de tentar construir democracias e que as ditaduras que estavam no poder eram bem melhores. Quem escreve a favor das primaveras árabes é ingénuo.

Os autores nunca explicam qual é a alternativa aos actuais processos no Egipto, Tunísia ou Líbia (suponho que defendem o regresso dos ditadores derrubados). E não se pronunciam sobre a repressão do regime de Bachar al-Assad na Síria (afinal, os adversários deste grande estadista são barbudos); o Iémen também fica muito bem com o seu general Saleh.

 

De um incidente ocorrido numa sociedade complexa extrai-se mais uma prova de que os actuais processos políticos são intrinsecamente maus. Veja-se este post em Cachimbo de Magritte ou este em O Insurgente. Fernando Martins e Rui Carmo não explicam aos seus leitores que a violência e a perseguição envolvendo a comunidade de cristãos coptas é recorrente no Egipto e que as informações sobre esses acontecimentos eram mais escondidas no tempo de Mubarak. Também nunca os vi elogiar um acontecimento favorável a estas revoluções, mas aqui seguem a saudável prática de que uma boa notícia não é notícia.

Sempre que há um incidente, lá surge um post destes, em tom de spleen fatigado de quem se fartou de avisar. Mas os autores nunca respondem às perguntas que certamente bailam na cabeça dos seus leitores: se é assim tão mau, que podemos fazer? Mubarak regressa? Proíbe-se a Irmandade Muçulmana? Deve a Europa apoiar um golpe de estado militar que sufoque o movimento de protesto iniciado na praça Tahrir? Acabar com o embrião de liberdade de imprensa? Proibir os partidos? Falsear as eleições ou, no mínimo, fazer uma chapelada? Devem as autoridades militares egípcias prender os defensores do Islão político ou de alguma forma retirar-lhes os direitos cívicos entretanto conquistados?

Podemos concluir que os autores não acreditam ser possível criar uma democracia viável no Egipto. Que o Islão é incompatível com a democracia parlamentar. Que os árabes não sabem pensar nem sabem resolver os seus problemas.

Enfim, gostava de ler uma resposta, embora saiba à partida que estas minhas perguntas ficarão assim no ar.


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