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Forte Apache

O peixe podre

José Meireles Graça, 14.01.13
(*)
 

Pacheco Pereira tem uma grande biblioteca, e a reputação de ter uma formação filosófica, imagino que sólida, e de ser um leitor ávido. Isto num espaço público onde a maioria não chega sequer a ter consciência da própria ignorância mas tem um respeito instintivo pelos intelectuais, mesmo quando os despreza, intimida. Depois, sempre se envolveu no combate político, sempre teve simpatias partidárias declaradas e, a partir de certa altura, cedo, migrou da nebulosa comunista para a zona democrática, acolhendo-se na balbúrdia congénita do PSD, onde ganhou estatuto - os partidos políticos adoram ornar-se de intelectuais e houve um momento na nossa história recente em que um ex-comunista era recebido de braços abertos, por conferir uma espécie de legitimidade "revolucionária" aos partidos "burgueses". Éramos assim, anteontem, e não creio que sejamos muito diferentes hoje.

 

Desde que Passos apareceu na corrida para disputar a liderança do PSD que Pacheco escolheu outros cavalos; e pôs nesse combate a suficiência e a jactância que lhe são naturais.

 

Perdeu: tem mais vocação para perder do que para ganhar, o que, se não diz nada sobre o que quer que seja que defenda como doutrina política para o nosso País, diz alguma coisa sobre a sua competência tática para a luta partidária.

 

Mas Pacheco não gosta de perder. E tem das suas tribunas perseguido tenazmente o Governo actual, a tal ponto que na Quadratura, por exemplo, o seu discurso só se distingue do do edil Costa quando falam do passado: Pacheco acha, com razão, que Sócrates foi um demagogo que pôs o País de joelhos; e Costa entende que, se Sócrates tivesse sobrevivido, não haveria Memorando, nem austeridade, mas antes "apostas no crescimento", e mais "solidariedade", "Europa" e outras piedades. Que são precisamente as mesmas, mais a renegociação, que defende para a situação presente.

 

Fosse eu um malévolo blogueiro e diria que, se Pacheco tivesse algum lugar no aparelho da Situação, não abandonaria a sua aversão ao líder da maioria mas seria bem mais compreensivo dos constrangimentos terríveis que este Governo herdou; e que, longe de escrever textos imbuídos de um espírito de finis patriae, daria algum contributo para o desenho de uma solução.

 

Mas não, não dá: o título do artigo de ontem (sem link) no Público era: O peixe apodrece pela cabeça. E nele condena com veemência, e muitas vezes com propriedade, na governação actual, o estilo, as práticas, as maçãs podres e a Refundação. E conclui: "Sempre podem cortar a cabeça ao peixe, deitar o peixe fora e arranjar outro. É difícil, mas não é impossível".

 

É no que dá um pensador envolver-se na guerrilha partidária: prefere discutir pessoas e lugares, não políticas. E, como de costume, nem nisso acerta: o peixe do PSD é decerto pouco fresco; o do PS, herdeiro natural, mesmo que envolvido em folhas frescas de salva, despede um fedor que empesta o mercado.

 

Sobre a reforma da frota de pesca, Pacheco diz nada. Confere.

 

__________

 

*tirado daqui

A cambalhota

José Meireles Graça, 27.04.12

João Pinto e Castro, a respeito da reviravolta opinativa pachequiana, propõe aos leitores duas hipóteses de explicação: a) o homem é um genuíno espírito independente; b) o homem é tolo.


Tolo não é, basta ouvi-lo falar - aquilo é um desparrame de ideias profundas, pelo que podemos com segurança descartar a hipótese b). A a) é aliciante mas errónea: Pacheco poderá andar a reboque das últimas leituras que lhe ocuparam o ócio, e não hesitar em mudar, do que é testemunho o seu percurso. Só que, com uma curta diferença de apenas meses, ninguém se re-sintoniza tão radicalmente.


Por mim, adianto uma hipótese c): Não foi convidado para deputado nem para coisa nenhuma, não faz parte de nenhum orgão político e, incompreensivelmente, ninguém lhe pergunta a opinião. Logo, está aflito com os sucessivos erros que a sua área política, por falta de aconselhamento, não cessa de cometer.


E creio que é aqui, na generosa preocupação com o acerto de políticas do PSD, para já não falar da angústia causada pelas consequências dessas políticas, que radica a cambalhota - não é preciso formular hipóteses malévolas.