Quarta-feira, 13 de Março de 2013
por Pedro Correia

Mal acabei de ver o novo Papa assomar ao balcão da Basílica de São Pedro, lembrei-me de um dos seus predecessores: Albino Luciani, patriarca de Veneza, que passou à história como o efémero João Paulo I, pontífice por 33 dias.

Também ele apareceu com ar despojado, fraterno, repassado de fragilidade humana. De braços caídos, sem pedir aplausos, com um sorriso tímido, parecia querer dizer aos mil e trezentos milhões de crentes que o reconhecem a partir de hoje como dirigente espiritual que está disposto a aceitar este imenso desafio que o destino lhe proporciona embora não se sinta verdadeiramente digno dele.

 

 

As primeiras palavras que dirigiu à multidão foram as mais inesperadas, por serem tão simples: "Boa noite." Passou logo ali uma corrente afectiva entre quem falava e quem ouvia: muitos dirigentes políticos deviam aprender com momentos destes - em comunicação não é preciso inventar nada, basta ir à essência das ideias e das palavras. A roda já foi inventada há muitos milhares de anos...

 

Jorge Mario Bergoglio - argentino de 76 anos, jesuíta, filho de um imigrante italiano, diplomado em Engenharia Química - é o primeiro titular do Vaticano oriundo do continente americano, o maior viveiro de fiéis católicos do planeta. Vivia num modesto apartamento em Buenos Aires, deslocava-se em transportes públicos, cozinhava as suas próprias refeições, aprecia tango, gosta de ver jogos de futebol e de encorajar os jovens a descobrir Cristo entre os pobres.

Escolheu um nome simples, sem antecedentes no trono de Pedro e portanto sem numeração. Simplesmente Francisco. Como Francisco Xavier, o santo missionário que deixou o coração em Goa. Como Francisco de Assis, que se despojou de todos os bens materiais para melhor servir os outros.

Há-de receber os grandes do mundo, há-de ter reis e presidentes a pedir-lhe a bênção, há-de escutar incontáveis ovações. Mas hoje, no balcão da basílica, parecia não ambicionar nada mais do que ser irmão de todos nós.

Francisco, ainda sem a estola papal, começou por pedir que rezassem por ele - outro gesto de inequívoca humildade que me fez lembrar Luciani, o pontífice do sorriso que tão cedo se apagou. E depois, como se estivesse ainda mal refeito da surpresa, afirmou: "Foram buscar-me ao fim do mundo..."

Que o santo de Assis o ilumine na peregrinação iniciada agora. E que no fim da caminhada saiba dizer também, como o outro Francisco disse: "Primeiro faz-se o necessário, depois o que é possível e de repente estamos a fazer o impossível."

Habemus Papam.

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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2013
por jfd

Em 2008 desejei que o Vaticano não demorasse anos a pedir perdão. Um ano depois comentei declarações sobre o VIH e o preservativo. Outro ano depois, vieram as declarações de que celibato e pedofilia nada tinham de relacionado.

Cinco anos depois do meu primeiro desejo, para que fosse limpo o nome de tão nobre instituição. Cinco anos em que fomos ridicularizados na nossa fé pela hipocrisia de muitos; correm as notícias de que o Bispo, tornado Papa, e único responsável pela custódia de todas as queixas de abuso de menores feitas em todo o mundo, vai-se demitir.

Ou o Vaticano começa a enfrentar com seriedade os seus demónios ou não há fumo branco nem Papa africano que nos salve a face.

São invocadas razões de saúde. Que tenha muita.

 


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Terça-feira, 10 de Abril de 2012
por Pedro Correia

 

«Protege-te dos vacilantes /

Porque um dia saberão o que não querem»

Heberto Padilla

 

Vários dias depois, interrogo-me sobre o destino daquele homem que se encheu de coragem e gritou "abaixo o comunismo, viva a liberdade" pouco antes do início da vasta missa campal celebrada pelo Papa na Praça Antonio Maceo, em Santiago, segunda maior cidade de Cuba. Foi um grito insensato, atendendo ao contexto, mas as figuras tocadas pelo heroísmo não costumam caracterizar-se pela sensatez.

Vejo e ouço rostos e nomes de assassinos diariamente nas páginas dos jornais e nas imagens dos telediários. Por lamentável contraste, ignoramos tantas vezes a identidade destes heróis solitários que ousam proclamar em voz bem alta o que milhões de concidadãos pensam em países agrilhoados e amordaçados. Ao ver aqueles fugazes segundos de reportagem televisiva em que vários esbirros da ditadura cubana rodeavam o indivíduo e o levavam para parte incerta, pensei que aquela era a perfeita metáfora de uma revolução falhada: 53 anos após a vitoriosa entrada dos barbudos da Serra Maestra em Havana, basta alguém proclamar uma frase em louvor da liberdade para ser riscado da convivência cívica.

Infelizmente, nada que deva surpreender-nos: em Cuba qualquer cidadão pode ser detido a todo o momento com acusações tão vagas e tão implacáveis como "faltar ao respeito aos símbolos pátrios", algo que muitos comunistas portugueses associariam de imediato à ditadura salazarista embora estejam sempre na primeira linha do aplauso ao chamado "socialismo cubano".

O problema não reside apenas na facilidade com que se é preso em Cuba. Há "flagrantes violações da dignidade humana" nos cárceres castristas, como alertam opositores à ditadura, entre eles o médico Óscar Elías Biscet, que sabe muito bem do que fala: esteve 12 anos preso por delito de opinião.

Pensava em tudo isto enquanto acompanhava a missa papal em Santiago sintonizando o canal oficial cubano Cubavisión, de que disponho através da TV Cabo. Dir-se-ia um canal devoto, tanta era a solene deferência perante Bento XVI nesta sua inédita peregrinação ao país que Fidel Castro fez proclamar em 1976 como estado ateu até à revisão constitucional de 1992.

 

Escuto com alguma emoção o Credo recitado em coro por largos milhares de vozes. Na primeira fila da assistência à cerimónia litúrgica alinham-se respeitosamente vários membros da nomenclatura cubana, com destaque para o "general do exército Raúl Castro, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros", como não se cansa de assinalar a locutora da Cubavisión. O irmão mais novo e herdeiro de Fidel saudou o Papa chamando-lhe "Santidade", algo impensável noutros tempos. Quase todos os bens da Igreja Católica foram "nacionalizados" após 1959 e dezenas de sacerdotes acabaram por ser expulsos da ilha, onde o ensino religioso foi proibido. Até 1991 um cidadão cubano tinha de se declarar "não crente" para ingressar no Partido Comunista.

"Ficaram para trás os anos de fanatismo anti-religioso em que as pessoas eram expulsas do trabalho ou da escola só por terem em casa um quadro do Sagrado Coração de Jesus", escreveu Yoani Sánchez no El País. O mesmo jornal que viu o seu correspondente em Havana, Mauricio Vincent, ser expulso da ilha em Setembro de 2011: os seus artigos independentes irritavam as autoridades comunistas.

 

Cuba deve avançar "pelos caminhos da justiça, da paz, da liberdade e da reconciliação", disse o Papa na sua homilia em Santiago enquanto a chuva caía, com persistência muito tropical. As imagens da Cubavisión focavam a multidão compacta, mas quase sempre à distância, com raros planos aproximados. A política contamina tudo - até a realização televisiva. O general Raúl Castro cumprimentou o Sumo Pontífice com uma semivénia respeitosa, a poucos metros da imagem da padroeira cubana, à qual Ernest Hemingway - cubano por opção e adopção - ofereceu a medalha recebida em 1954 pela Academia de Estocolmo que o distinguiu com o Nobel da Literatura.

Hemingway viu-se forçado a abandonar Cuba em 1960, o que lhe apressou a morte. Vivesse ele hoje e talvez acabasse por escrever um romance sobre aquele desassombrado cubano detido simplesmente por dar vivas à liberdade - anónimo herói da vida real. Robert Jordan - o protagonista de Por Quem os Sinos Dobram - gostaria de o conhecer. E era bem capaz de juntar a sua voz àquele corajoso brado solitário.

Foto: Enrique de la Osa (Reuters)

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