Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
por Mr. Brown

Era suposto sair um post sobre o Livro Negro do Paul Verhoeven e o Sedução, Conspiração do Ang Lee, mas são tantos os artigos que uma pesquisa rápida pelo google disponibiliza onde os dois filmes são comparados que decidi aproveitar a porta que tinha aberto para ir ao começo da carreira de ambos os realizadores. Paul Verhoeven é conhecido sobretudo pelo seu trabalho em Hollywood, mas na minha opinião os seus melhores filmes foram feitos em terras holandesas. Um é o recente e já referenciado Livro Negro, para encontrar o outro é preciso ir até 1977 e dar com O Soldado da Rainha, um retrato baseado em factos reais da resistência holandesa durante a segunda guerra mundial. Já Ang Lee terá entrado no circuito mainstream com a sua adaptação da obra de Jane Austen, Senso e Sensibilidade, mas antes disso realizou uma trilogia, sob a temática «father knows best», que deixava evidente boa parte dos atributos que fazem do realizador taiwanês um dos melhores na sua arte. Dessa trilogia gosto particularmente dos dois últimos, ambos nomeados na categoria de melhor filme estrangeiro nos Óscares: O Banquete de Casamento e Comer Beber Homem Mulher. Para efeito deste post, vou concentrar-me no último.


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Sábado, 7 de Janeiro de 2012
por Mr. Brown

Agora que os chineses entram na EDP, um pouco de história chinesa não faz mal a ninguém. A esse propósito há dois filmes que muito recomendo, são eles o Adeus minha Concubina e o Viver. Produtos de 1993 e 1994 respectivamente, estes representarão as duas visões mais interessantes e bem conseguidas, ainda que não totalmente coincidentes, dos períodos mais tumultuosos do século XX chinês (O Papagaio de Papel Azul é outro filme que costuma ser incluído no grupo, mas no que a este post diz respeito fica à margem). E nesse objectivo ambicioso a que os realizadores se propuseram, o de retratar a história de um povo durante um período agitado de mais de 50 anos - que inclui a ocupação da China pelos japoneses; a guerra civil que resultou na ascensão ao poder dos comunistas; o Grande Salto em Frente; e a Revolução Cultural -, ambos recorreram à literatura que pela mão de Lilian Lee no primeiro caso e Yu Hua no segundo haviam escrito o material que serve de suporte ao argumento, se bem que os livros quando comparados com os filmes sejam obras menores. Os realizadores esses são Chen Kaige e Zhang Yimou, os dois expoentes máximos da que ficou conhecida como a Quinta Geração, uma geração nascida dos destroços da Revolução Cultural e que, paradoxalmente, revolucionou o cinema chinês, sempre com um olhar muito crítico para com o regime vigente, para grande insatisfação deste que nunca se coibiu de lhes fazer a vida negra.

Ambos os filmes contam como protagonista com a - vou ficar pelo uso de um único adjectivo, sabendo à partida que é pouco - fascinante Gong Li, diva do cinema chinês que acompanhou profissionalmente os dois realizadores em muitos outros filmes e manteve uma relação íntima com Yimou que, para lamento de muito cinéfilo, terminou no ano seguinte à exibição de Viver, pondo fim a uma das maiores e mais bem sucedidas duplas que o grande ecrã conheceu (ainda que anos mais tarde, sem a mesma chama, tenham-se reencontrado em A Maldição da Flor Dourada). Comum é também a presença do actor Ge You, num papel menor em Adeus minha Concubina, mas presença maior em Viver, pelo qual recebeu o galardão de melhor actor no consagrado festival de Cannes. A acompanhar Gong Li em Adeus minha Concubina nos papéis principais estiveram o calmeirão Zhang Fengyi e o - não consta que tenha recebido algum prémio de maior pelo seu desempenho, o que mostra como o mundo é injusto - Leslie Cheung, na pele de um personagem homossexual, papel que mais tarde veio a revelar-se também era o seu na vida real.

 

 

Na história propriamente dita, o filme de Chen Kaige, que se prolonga ao longo de quase três horas, desenvolve-se em torno de um triângulo amoroso e aproveita uma coisa tão tradicional como a Ópera de Pequim - que proporciona imagens lindíssimas - para demonstrar o efeito das várias mudanças bruscas pelas quais a sociedade chinesa passou no período em análise. Inesquecível será a cena da revolução cultural, quando os três personagens são forçados a confrontarem-se entre si e solta-se o que de mais negro há dentro de cada um. A partir dai segue-se uma melancolia sem fim que fará soltar a lágrima ao espectador mais emotivo. Já no filme de Zhang Yimou, o tradicional também está presente na forma do espectáculo de fantoches que serve de ganha pão ao personagem principal. Escusado será dizer que ambas as tradições acabam esmagadas pela fúria do "progresso" revolucionário.

No que a cenas marcantes diz respeito, Viver também tem a sua quota parte, para registo fica a da maternidade de um hospital onde os médicos seniores, sob a acusação de serem colaboradores das forças burguesas e capitalistas, foram presos e substituídos por jovens inexperientes amantes da revolução. Num ambiente assim, onde as regras rígidas e absurdas imperam, a tragédia está permanentemente presente e o individuo, subjugado a ser peça na engrenagem de uma máquina colectiva imparável, acaba confrontado com resultados que fogem ao seu controlo mas são consequência das suas acções, o que origina um sentimento de culpa individual difícil de suportar e de lidar. O tema é recorrente na obra de Yimou - por exemplo, na história de Songlian em Esposas e Concubinas e na de Xiao Jingbao n'A Tríade de Xangai -, mas com o Xu Fugui de Viver as coisas chegam ao ponto de este alegrar-se com a irresponsabilidade passada - a perda da fortuna familiar no jogo - por esta lhe ter permitido melhor sobreviver no contexto da nova ordem instituída - onde não seria confundido com um burguês endinheirado. É o mundo ao contrário. Mas é também o instinto de sobrevivência em acção. Um instinto que mesmo quando confrontado com os maiores infortúnios vai mantendo os personagens principais agarrados à vida. O instinto e um permanente sentido de esperança, presente no fim do filme quando Xu Fugui, perdida a ilusão, deixa cair o comunismo, mas mantém viva perante o neto a promessa de uma vida que «só irá melhorar».

Fosse qualquer um destes filmes comparado com um combate de boxe e ficaria claro que ambos os realizadores haviam ganho por knockout. Entre outros, no tapete, derrotado, quedaria-se Mao Tse-tung e a sua revolução.


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