Domingo, 28 de Outubro de 2012
por Dita Dura

A corrupção é a principal doença do sistema político, seja através de nepotismo, clientelismo, suborno ou outras engenhosas formas de favorecimento. Uma sociedade nunca será verdadeiramente livre enquanto existir uma réstia de abuso de poder e não é coincidência que apareça nos países mais pobres, mais permeáveis à crise económica e com maior desigualdade na distribuição de riqueza. Precisamente por isso mesmo, é fundamental descobrirmos rapidamente uma cura para podermos superar a grave crise económica. Mas a verdade é que apontar o dedo é demasiado fácil e, se não quisermos ser hipócritas, facilmente observamos que o tráfico de influências está impregnado em toda a sociedade e convivemos diariamente com as cunhas, os arranjos e os favorzinhos.

 

Nas candidaturas de emprego, por exemplo, os jovens habituam-se desde cedo a utilizar todos os meios ao seu alcance para conseguirem uma oportunidade. E os instrumentos variam desde a influência familiar até à insinuação sexual que está tantas vezes latente nas entrevistas. É um jogo que aceitam fazer por ser mais eficaz que qualquer aptidão profissional e é o primeiro sintoma de um carreirismo baseado em premissas tribais primárias. Por outro lado, mais do que um colaborador competente ou um investimento em capital humano, os empregadores buscam uma sensação de poder que para eles é tão fundamental como a conquista do lucro. São instintos básicos próprios de uma sociedade primitiva e os catalisadores de uma noção de sucesso profissional que nos deixa uns furos abaixo dos nossos concorrentes do Norte da Europa.

 

Mas é evidente que esta cultura mediterrânica não se encontra só na gestão de pessoal. Em todas as áreas do negócio existem estas motivações subconsciencializadas, desde a contabilidade criativa até à abordagem comercial que coloca os produtos ou serviços cinco por cento mais caros para se fazer o obrigatório desconto de pagamento de cinco por cento. Todos sabemos que, sem este tipo de compensações imaginárias, há pessoas que não dormem e sofrem ataques de ansiedade. Porque a sensação de que estamos a ultrapassar alguém num negócio devido à nossa esperteza superior tem o efeito de uma injecção de heroína.

 

Podemos assim deixar de encontrar explicações matemáticas para a falência económica mediterrânica. De nada servem os modelos estatísticos ou as complicadas demonstrações macroeconómicas. A razão da nossa (tão falada) fraca resposta económica perante a crise económica e imobiliária tem raízes essencialmente psicanalíticas. Por isso, ponham de lado os economistas, dispensem os comentadores políticos – o que precisamos neste momento é de psiquiatras e psicólogos que façam uma boa terapia cognitiva e comportamental para reestruturar as motivações primárias dos empresários e cimentar relações económicas que não se desviem do seu objectivo principal. E no final talvez receitem um bom medicamento que cure estes comportamentos desviantes. De preferência um gigante supositório. 


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Domingo, 21 de Outubro de 2012
por Joana Nave

Tenho andado a reflectir sobre a questão das aparências e os vários papéis que desempenhamos nas nossas vidas. A forma como nos vestimos diz muito sobre nós, se estiver de acordo com um estilo que adoptamos e que nos identifica. Porém, essa hipótese deixa de fazer sentido quando passamos a vestir-nos de acordo com a situação. A ideia da farda nas escolas ou do traje académico tem origem, precisamente, na não distinção dos alunos pela sua classe social, ou seja, desta forma não se descrimina ninguém por vestir ou não vestir roupas de marca e caras. Já em determinadas profissões a escolha da roupa deve ser de acordo com o trabalho desempenhado, ou seja, um operário de uma fábrica ou um enfermeiro não devem vestir da mesma forma que um gestor de um banco. No entanto, a questão da moda também varia com o tempo. Antigamente, na infância, as meninas andavam de vestido e os meninos de calções, usavam-se cortes clássicos e tecidos requintados. Hoje em dia, é usual vestir as crianças à semelhança dos adultos. Eu, que ainda sou doutro tempo e com pais à moda antiga, lembro-me destes pormenores que tornaram a minha infância mais feliz e sinto que algo se perdeu na troca de estilos. Com a adolescência surgem outras manias: os betinhos, os desportivos, os góticos e os alternativos. Cada grupo tem uma forma de vestir própria, assim como acessórios, adereços, o estilo de música, os hobbies e as conversas. Eu tenho ideia que fiz parte do grupo betinha/desportiva, o que quer que isso queira dizer. Gosto de me vestir bem, mas de acordo com a ocasião. Geralmente prefiro roupas largas e confortáveis, poucos adereços e/ou acessórios. Penso que a roupa é o que menos me define, pois tenho interesses e gostos variados, que se orientam para um estilo mais alternativo, que pouco ou nada tem a ver com tecidos ou saltos altos, mas tão-somente com as ideias que me assaltam e que me definem como pessoa. Acho que o estilo que melhor me caracteriza é a versatilidade, um camaleão que se confunde com a paisagem, para que não me destaque pela aparência mas sim pelo conteúdo.


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Sábado, 18 de Agosto de 2012
por Joana Nave

No próximo dia 1 de Setembro vai passar no King o filme “Carnage” de Roman Polanski. Deixo aqui a sugestão para quem não teve oportunidade de o ver antes. Carnage significa carnificina. Esta tradução faria bem mais sentido que “O Deus da carnificina”, até porque me parece que a carnificina não é divina, mas sim um atributo do homem.

O filme conta um episódio caricato na vida de dois casais que se cruzam na sequência de um desentendimento entre os filhos. A raiz do desentendimento é banal: um grupo de crianças onde o líder rejeita a entrada de uma criança para o grupo. Entretanto, os pais são chamados a intervir de forma a repor a ordem e argumentam o sucedido com a educação que transmitiram aos filhos. O genial de tudo isto é que os pais acabam por revelar características de conduta em sociedade bem mais absurdas e intransigentes que as adoptadas pelos filhos. Enquanto os pais se agridem verbalmente e revelam as suas falhas educativas através do entendimento que fazem dos factos, os filhos acabam por fazer as pazes, porque as crianças são bem mais sensatas, práticas e simples que muitos adultos.

Polanski dá-nos assim a conhecer uma experiência social fortíssima, pois basta colocar dois casais perfeitamente desconhecidos num espaço fechado, a discutir os métodos pedagógicos que regem o comportamento dos filhos, para desencadear os monstros que se escondem por trás das aparências da vida em comunidade. Quem nunca ouviu uma mãe ou um pai gabar os seus filhos como se fossem os melhores do mundo? Quem nunca viu uma mãe ou um pai defenderem os actos mais cruéis dos seus filhos apenas porque são os seus filhos, os mesmos com os quais se comprometeram cuidar, proteger e educar? Ter um filho é uma responsabilidade tremenda, um compromisso para a vida. Antigamente tinham-se filhos para ajudar os pais, hoje são os pais que ajudam os filhos, fruto da evolução dos tempos em que a emancipação é cada vez mais tardia.

No entanto, a abordagem social que está aqui presente é a que rege as crenças e os valores dos pais. A complexidade da vida adulta, tão exigente e permeável, é um desafio constante até para o mais atento, bondoso e respeitador ser humano. Os adultos têm de ser filhos gratos, trabalhadores responsáveis, maridos e mulheres carinhosos e pais exímios. Os vários papéis estão ainda sujeitos às contrariedades do dia-a-dia, às relações que têm com os amigos e ao desempenho de um papel social de dedicação e empenho para as causas e efeitos que governam o mundo. Por vezes, ser adulto cansa. Seria bom poder carregar num botão e de repente, por apenas uns instantes, não termos de cumprir nenhum papel a não ser o de sermos nós próprios, seres frágeis, com as nossas dúvidas e medos, e altamente falíveis.

Esta é a verdadeira carnificina dos nossos dias, que não nos dá um só segundo para sermos seres humanos, exigindo que sejamos divinos, perfeitos e complacentes.


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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
por Ricardo Vicente

A propósito do post anterior de Luís Naves...

Eu não sinto estranheza nenhuma: a violência das reacções às palavras de Cavaco Silva é explicada pelo factor do costume: o mesmo velho racismo social que escolheu há já décadas Cavaco  Silva como inimigo público número um.

No Portugal socialista que andamos a sofrer desde 1974, as simpatias são dirigidas exclusivamente aos aristocratas: soares, socialistas, militares e outros. Ao mesmo tempo, quem sobe a pulso vindo de família pobre é sempre desdenhado e detestado.

Uma grande parte da sociedade portuguesa tem uma inveja odienta ou um ódio invejoso a todos os que se fazem a si mesmos. Portugal odeia o mérito. E usa da mais rasteira falsidade para dar largas a esse ódio: ainda no outro dia ouvi um comediante popular acusar Cavaco Silva de ter sido toda a vida um privilegiado.


Por outro lado, as pessoas dão mais valor à forma do que à substância. Políticos fotogénicos, com verbo fácil e estilo mãe-galinha são preferidos a gente séria que diz o que pensa e diz a verdade sem eufemismos nem embelezamentos. Guterres, Sampaio, Sócrates foram preferidos a Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite.

 

Os portugueses preferem também a literatice à economia. As cabeças portuguesas não aguentam muito cálculo e as frases verdadeiras, directas e justas magoam muito os nossos sentimentos. Cavaco Silva é culpado de ser economista e isso é o mesmo que não ter literatura. Viveu em África e Inglaterra mas será sempre injustamente denunciado de "não ter mundo". Mas qualquer analfabeto de contas e finanças é louvado desde que seja republicano, socialista e laico.

 

A balança pende pois sempre mais para um soares do que um cavaco e isso explica muito da actual desgraça e frustração portuguesas. O resultado é esta triste vida poética em que se fala de Quinto Império, maçonarias, lusofonia mas só se encontra mediocridade, corrupção e subserviência canina a tudo o que não é nacional (o aborto ortográfico é só um exemplo entre um número infinito deles).

Gostaria que alguma dessas fábricas de teses de mestrado politicamente correctas, que afirmam que Portugal é muito mais racista, homofóbico e machista do que os outros países e do que os portugueses pensam, se debruçasse sobre este assunto: o racismo social e o ódio ao mérito neste país.


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Domingo, 23 de Outubro de 2011
por Alexandre Guerra

 

Hoje, muitos são aqueles que, desiludidos, chocados ou revoltados com o paradigma de sociedade vigente, apregoam uma revolução (ou revoluções). Na maioria dos casos não se percebe muito bem o que move estas vozes de descontentamento: se é uma convicção ideológica, desespero, irreverência ou, simplesmente, a resposta ao apelo irreflectido para a contestação de “rua”.

 

Uma coisa é certa, as massas têm se feito ouvir de forma ruidosa e, nalguns casos, estrondosa, como a Grécia ilustra bem. Mas, por mais que se tente ouvir as pessoas, a falta de sofisticação ideológica (leia-se ideias) no suporte ao seu discurso torna difícil qualquer leitura coerente que permita a construção de um modelo de pensamento que possa servir de referência para as gerações vindouras.

 

Perante isto, poder-se-á dizer que o apelo à revolta (das ideias) é desprovido de consistência intelectual e de profundidade quanto ao seu alcance? Provavelmente, sim.

 

A ausência de pensamento e de reflexão em cada uma das pessoas que faz ouvir a sua voz cinge o seu protesto a um acto de descontentamento pelo seu quotidiano, provocado apenas pelo desconforto material (leia-se, falta de dinheiro) das suas vidas.

 

E já não é pouco, dirão muitos leitores (e com razão), mas não o suficiente para se proceder à tal revolução de paradigma mais abrangente. Porque, essa tem que ir além da “crise” dos mercados e da falta de emprego. Aqui, as pessoas terão que, obrigatoriamente, reflectir sobre elas próprias, sobre o seu papel enquanto “animal” inserido numa sociedade.

 

O problema é que este exercício torna-se de difícil execução, porque pressupõe racionalidade, intelecto, autocrítica, humildade (outros adjectivos haveria).

 


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Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011
por Fernando Moreira de Sá

Não serei a melhor pessoa para avaliar estas coisas. Tirando o Porto Canal, por razões óbvias (profissionais, sentimentais e de proximidade informativa) vejo pouca televisão. Tirando a informação, só cabo (e mesmo assim, pouco).

Nas redes sociais, em especial no facebook, vou-me apercebendo que os programas/concursos de novos talentos musicais existentes em Portugal são idênticos aos que existem noutras paragens. A produção é a mesma, o estilo dos apresentadores não é muito diferente e a qualidade geral não difere muito de cá para lá. Apenas num ponto as coisas são muito diferentes, assustadoramente diferentes e que nos devem obrigar a pensar.

Temos, sempre assim foi, a mania que somos os melhores. No futebol, o nosso Ronaldo é o melhor do mundo. Não, não é. É um dos melhores mas não se compara ao Messi. O nosso Algarve é o melhor destino de praia da Europa e o Porto Santo uma das 10 melhores praias do Mundo. Não, nem o Algarve é o melhor destino de praia da Europa (será que conhecem as ilhas gregas, a Sardenha, sem falar em boa parte da costa croata?) e querem mesmo acreditar que a praia do Porto Santo está no top ten mundial? Só no índico temos mais de uma centena de praias que metem o Porto Santo num bolso, o que não significa, pelo contrário, que o Porto Santo não seja fantástico. Claro que é mas...Estes dois exemplos podem ser replicados em tantas outras áreas. Temos gente e empresas a fazer coisas fantásticas, do melhor que se faz no mundo e para um país da nossa dimensão (territorial e humana) até nem é nada mau. Mas, calma, nada de exageros.

Ora, os sucessivos "resultados" destes concursos de "talentos" mostram, de forma nua e crua, alguma da nossa limitação em determinadas aspectos. Sem querer ser mauzinho e atendendo que não sou espectador atento, a ideia com que fico ao ver os nossos "melhores" desses programas é assustadora. Uma pobreza franciscana, uma mediocridade aterradora quando comparada com os inúmeros vencedores dos outros concursos similares noutras paragens. O vídeo que publico neste post é disso exemplo.

Não tanto pelas suas capacidades de cantor, a música escolhida não permite uma análise fria e depois dos jurados ouvirem a história deste concorrente, com franqueza, seria impossível não reagirem como o fizeram. A questão é outra. Bem diferente. É a capacidade de superação. O enfrentar a adversidade com garra. É o querer vencer.

Nisso, meus caros, ainda somos muito pequenos. Ou como uma vez me disse um grande amigo e, por sinal, companheiro de blog, temos um grande problema: somos os netos dos que não foram à Índia. Ao ver este vídeo e o comparar com os que, em Portugal, venceram o mesmo tipo de concurso, compreendi melhor a sua afirmação...


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