Quarta-feira, 25 de Julho de 2012
por José Meireles Graça

Viriato Soromenho Marques é federalista e de esquerda. Eu sou nacionalista e sensato. Não sei se Viriato é há muito federalista, ou apenas desde que constatou que o Euro obscureceu a real performance de muitos países a tal ponto que a certos Estados, e aos cidadãos deles, foi concedido crédito muito para além do razoável. Mas sei que nunca fui federalista, e estou seguro que aqueles que sempre o foram não têm consciência que uma tal crença, se levada à prática, seria uma asneira ainda maior que o estúpido voluntarismo do Euro. Como cidadão, a minha opinião e o meu voto valem, na hora de escolher, tanto como o do Sr. José, meu empregado, que sobre estas matérias declara sobriamente que "eles estão lá é p'ra se encherem, que vão todos para a puta que os pariu". E o que eu digo, o que diz este excelente homem, e o que diz Soromenho, no que toca a escolhas básicas, vale o mesmo.

 

Sucede porém que, pese embora o estado de zanga permanente em que a classe dirigente vive com o País há gerações, somos estrangeiros em qualquer outro sítio que não naquele que se designa por Portugal; e, com excepção de lunáticos, literatos iberistas e cosmopolitas, que sempre houve, nunca seriamente, há muitos séculos, se pôs o problema de acabar com a nacionalidade. Põe-se agora, e de maneira caricata: o País deve o que não pode pagar, porque uma geração inteira de dirigentes políticos inventou a forma de comprar votos com despesa pública e privada sem que, aparentemente, houvesse limites; os hoje credores acreditaram na engenharia porque eram políticos e banqueiros, uns interessados nas grandes construções sociais que lhes compraram notoriedade e lugares, os outros em lucros rápidos e prémios gordos, todos crentes, com razão, que para eles, pessoalmente, não haveria consequências negativas.

 

Vem agora a segunda vaga: já que nem todos os países europeus perderam de vista que nem todo o empréstimo é virtuoso, nem todo o investimento reprodutivo, nem todo o crescimento são; já que a Europa, no seu conjunto, é uma economia ainda forte e equilibrada, e certamente em melhores condições que a Americana: adoptemos o princípio dos vasos comunicantes aplicado à Economia - com o crédito, as taxas de juro e o rigor e sobriedade nórdicas, voltamos à estrada do crescimento induzido pela dívida e esquecemos esta sombra negra da austeridade.

 

Os dirigentes dos países que não estão encalacrados respondem perante os respectivos eleitorados, não perante o eleitorado europeu, em si mesmo uma ficção apenas útil para o ritual das eleições para o "Parlamento" Europeu. Esta indignação do iluminado Soromenho contra a "gente pequenina", o "cínico Weidmann" (um "Torquemada monetarista", nada menos) e os "cobardes" que estão em silêncio, além de primária na sua crença de que a realidade objectiva se muda a golpes de inspiração de políticos que ocupam cadeiras temporárias e periclitantes, é também quase doentiamente cega: o caminho seguido pôs-nos de joelhos, exangues e pedintes? Pois então, em vez de mudarmos de caminho, digamos aos credores que eles é que devem mudar, adoptando a nossa maneira de estar.

 

Não vai ser assim. E que os Soromenhos abundem, e tenham audiência e prestígio, faz parte dos nossos problemas; não das nossas soluções.


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Segunda-feira, 9 de Julho de 2012
por José Meireles Graça

Tropecei por acaso num programa na RTP, que creio se chama "Mais Europa" e é, já se vê, sobre europeíces. Quem o conduz, com o seu estilo peculiar, é Teresa de Sousa: interrompe quem está a falar, completando raciocínios, circunflexa as sobrancelhas no esforço de debitar a sua interpretação dela da milionésima reunião de um Eurogrupo qualquer, se é que não era do Conselho, ou de mais uma Cimeira - tudo muitíssimo importantíssimo.

 

Os entrevistados eram o ubíquo Viriato Soromenho Marques e outro senhor, o "Carlos", que praticamente não tive o prazer de ouvir - cheguei tarde. Tarde mas ainda a tempo para ouvir Viriato declarar en passant que "a solução seria uma Europa Federal". Uma hora mais tarde, no Telejornal, foi a vez de Vítor Ramalho, da FNAT e do PS, com a mesma solução. É o que se chama um princípio de noite bem passado.

 

Por muito que as pessoas que, como eu, aspiram a acabar com a gestão socialista do País, que dura há décadas e nos trouxe a 1891, ou talvez aos anos vinte do século passado, imaginem que os países do Norte vão dirigir a Europa Federal, impondo o seu rigor na gestão da coisa pública; e por muito que os Viriatos de declinações várias sonhem que os países do Sul imporão o seu desregramento, que reputam virtuoso e passível de correcção pelo princípio dos vasos comunicantes: não me ocorre nenhum problema que a Europa Federal resolvesse no meio da geral barafunda. E ocorre-me um que criaria: tarde ou cedo, mais cedo do que tarde, o abuso, a dominação, a arrogância de uns mostrariam as suas hediondas cabeças; e o ressentimento, a desconfiança e o ódio de outros as suas, simétricas.

 

Os sinais já aí estão. Mas os Viriatos (infeliz nome, nas circunstâncias) julgam que os calotes de uns mais os créditos de outros fazem um caldo de cultura ideal para a engenharia de pátrias em que se estimam doutorados. É no que dá ou ler pouco, ou maus livros, ou tresler - ei, estou a falar deles.


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